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Um Mundo pintado a Números

A bomba relógio do desemprego entre os jovens. O porquê da importância da inflação no preço dos alimentos. Especialistas debatem os limites da aquacultura. Governos começam a dar aos seus cidadãos alimentos de graça. Apostas que o petróleo irá chegar aos 250 dólares, por causa dos riscos no canal do Suez. Arábia Saudita não consegue aumentar a produção de modo a controlar os preços no mercado. A teoria dominó e o síndroma saudita.

Os jovens…futuro das sociedades deste mundo… estão cada vez mais perdidos num mundo que está em provável contracção, mesmo que os números económicos queiram expressar exactamente o contrário.
Na Tunísia, no Egipto, em Portugal, na Europa, no mundo ocidental desenvolvido, são os jovens que mais estão a ficar desprotegidos, desamparados, desempregados… isolados… engolidos por uma onda de crescimento (numerário) económico desenfreado, desequilibrado e desprendido dos valores sociais.
Uma “monumental” peça jornalística da Bloomberg explica-nos de forma mais aprofundada esse crescente problema:

Os Hititas (tunisinos) e os Shabab (egípcios) têm irmãos e irmãs espalhados por todo o globo. Na Grã-Bretanha, são chamados de NEETs (Jovens que estão fora do sistema de educação, dos cursos profissionais, ou desempregados). No Japão, são os chamados “freeters” – uma amálgama da palavra inglesa freelancer e da palavra alemã, Arbeitr, ou trabalhador. Os espanhóis chamam-lhes os “mileuristas”, palavra que retracta os jovens que ganham menos de mil euros por mês. Nos Estados Unidos, são os “jovens boomerang”, jovens que terminaram a universidade e voltam para casa dos pais por não conseguirem encontrar trabalho. Até numa China em rápido crescimento, onde a falta de mão de obra é mais comum que o excesso de oferta, tem a sua “tribo-de-formigas”, jovens recentemente graduados que vão viver em grupos para apartamentos baratos nas franjas das grandes cidades por não conseguirem encontrar empregos suficientemente bem remunerados.
In Bloomberg

Isto devia servir de mensagem de alerta para todos os bananas deste mundo… mas não, o numerário económico, o excedente que a banca gere, a dívida para gerar mais crescimento, são invariavelmente preferidas ao abordar deste problema… e isto poderá vir a ter custos muito mais elevados do que os gerados por uma contracção do numerário (por vezes fictício) impulsionada pela contracção do crescimento…

A fissura entre os jovens e os que já não são jovens está a alargar-se. O antigo Primeiro Ministro italiano Giuliano Amato disse ao Corriere della Sera: “As gerações passadas consumiram o futuro das mais jovens”. Na Grã-Bretanha, o Ministro do Trabalho, Chris Grayling, comparou o desemprego crónico a uma “bomba relógio”. A. Jeffrey A. Joerres, chefe executivo da Manpower (MAN), uma companhia de trabalho temporário com escritórios em 82 países, acrescenta: “o desemprego nos jovens irá claramente ser uma epidemia na próxima década, a não ser que o abordemos já no imediato. Não se pode fechar os olhos a isto.”
In Bloomberg

Alguém vê por aí alguém (bananas, instituições internacionais, etc.) a abordar este problema de forma capaz… até mesmo ao de leve?
Eu não! O que vejo são os números… os números da economia a serem abordados de forma quase insana perante a realidade de um mundo que não se contabiliza nas folhas de cálculo de uns quantos economistas viciados no 1, no 2, no 3, na escala dos números, nos números que reflectem mais o mundo dos “eles” do que o verdadeiro mundo de todos nós:

No ano passado a ILO encontrou uma réstia de esperança. Depois de analisar os dados de 56 países, os investigadores estimaram que o número de desempregados entre os 15 e os 24 anos, em 2010, tinha regredido nessas nações, em quase 2 milhões, para menos de 78 milhões. “Inicialmente pensámos ser um bom sinal”, disse Steven Kapsos, economista da ILO. “Parecia que os jovens estavam a conseguir penetrar no mercado de trabalho. Mas depois apercebemo-nos que era o número de trabalhadores em busca de um emprego que estava a declinar. Os jovens estavam a desistir.”
In Bloomberg

Estará este sistema económico a criar párias? Revolucionários? Ladrões e criminosos? Pobres?
Talvez um pouco de tudo… jovens destruídos pela incapacidade de um sistema que se baseia nos números e que se afasta cada vez mais da realidade do real.

E se juntarmos esse cocktail potencialmente explosivo de jovens à deriva com a inflação dos preços do alimentos que está a ocorrer  por todo o mundo, inflação que na sua génese está intimamente ligada aos pacotes de estímulo que foram injectados um pouco por todo o mundo desenvolvido e não só?

Dos dados da inflação são excluídos os preços voláteis dos alimentos e da energia numa tentativa de pintar um quadro mais real a longo prazo. É por isso que Bernanke pode dizer que a inflação continua quase silenciosa. Se retirarmos os preços dos alimentos e dos combustíveis, a inflação é realmente baixa.
Mas até alguns dos economistas “bullish” já não estão a ir na cantiga, como Ed Yardeni, presidente da Yardeny Research. Está a começar a ficar preocupado que Bernanke possa, com o QE2, ter libertado a besta da inflação pelo mundo.
In Daily Finance

Pois é, num mundo pintado e gerido a números, pelas classes banananeiras e casineiras, quase nada mais lógico existirá para eles que criar novos algoritmos que os ajudem a pintar no tom desejado o mundo em que todos nós vivemos, de modo a que o mundo dos “eles”, distante e ilusório para a grande maioria, possa continuar a crescer no papel.
Quem em seu perfeito juízo pode retirar das contas da inflação os alimentos e os combustíveis? Quem se não os doidos, ou os mentirosos?
Eu próprio respondo à minha pergunta: Os bananas e os casineiros!

E como o verdadeiro mundo não se rege pelos números artísticos de uma classe que vive num número próprio, eis que parte dessa classe, a medo depois dos recentes desenvolvimentos e revoluções na Tunísia, no Egipto, etc., resolve começar a doar alimentos à população de modo a tentar controlar possíveis sublevações sociais nos seus feudos. Os mesmo que arriscam a real realidade do mundo numa folha contabilística desvirtuada, apresentam-se a partir de agora como os bons… amigos…

O Ministro do Comércio e Indústria embarcou esta terça-feira numa campanha de distribuição e oferta de provisionamentos alimentares a todos os cidadãos elegíveis para os receber, como parte de uma oferta do Amir HH para o público do Kuwait.
In Arab Times

Hmmm… que mãos abertas… hmmm…
E para quem estiver menos atento e pensar que isto está a acontecer apenas nos países do Médio Oriente, relembro que 15% da população americana recebe do Estado cheques mensais para se conseguir alimentar … 15%!!!!!

Enquanto isso, o mundo das ciências, e as suas constantes evoluções e soluções para quase todos os males que o apoquentam, líderes numa acção maioritariamente benéfica a nível social mas igualmente enganadora, vão também constantemente chocando de frente com os limites físicos de um planeta que não se coaduna com soluções finais e totais.
A aquacultura, método apontado como salvador dos bancos de pesca do mundo, está a chocar de frente com os seus limites:

“Vamo-nos deparar com cada vez mais constrangimentos em termos de espaço disponível, de acessibilidade à água  – principalmente água doce – e também com os impactos ambientais e no fornecimento de rações”, disse o Sr. Cochrane.
In The New York Times

Eis que passadas umas décadas depois de ter sido anunciada como a solução final para os problemas de excesso de exploração dos bancos de pesca do mundo, este mesmo mundo tem de chegar à conclusão que as soluções salvadoras finais não podem\devem ser vistas e analisadas como tal, sob pena de serem quase sempre apenas um engano. O mundo e o Homem são limitados… ilimitados são apenas os sonhos do Homem.
Portanto, para além das “brincadeiras” com os números que estão a levar os preços dos alimentos até ao inacessível a uma boa parte deste mundo, também temos de começar a analisar profundamente que não irão ser apenas os cereais, as frutas, as verduras e a carne que irão aumentar exponencialmente de preço.
É só boas notícias…

E para adicionar um pouco mais de sal a tudo isto, ficamos a saber que há casineiros a apostar que o petróleo irá em breve custar 250 dólares por barril. 250 dólares por barril!!!! Se os “eles” estão a apostar que o barril irá a estar a 250 dólares é porque na mente deles o preço tenderá, muito provavelmente, a passar largamente esse valor:

Os investidores subiram as apostas de que o preço do petróleo poderá chegar aos 250 dólares o barril, preocupados que a revolta no Egipto possa interromper o tráfego marítimo no canal do Suez e alastrar-se até à Arábia Saudita.
In Bloomberg

Quando li isto pensei: “custa-me a acreditar que seja apenas por causa do enunciado nesta notícia… 250 dólares é 150% a mais que o preço actual… é demasiado… e até os casineiros são minimamente sãos das ideias…
E eis que hoje surge algo que me parece bem mais real, para reflectir essas apostas, do que os problemas no canal do Suez:

A revelação do conteúdo de um telegrama liberado pelo Wikileaks urge Washington a levar seriamente em conta um aviso de um executivo petrolífero do governo saudita de que as reservas do reino podem ter sido exageradamente estimadas em mais de aproximadamente 300 mil milhões de barris – quase 40%.
In The Guardian

Bomba!!!! Se as reservas na Arábia forem menos 40% do que ao proclamado, detendo a Arábia as maiores reservas do mundo e sendo o maior produtor e exportador mundial, então este mundo poderá ter menos de 1\5 de todo o petróleo que julga ainda existir por explorar.
Talvez esta informação nos ajude a compreender muitos dos porquês de tantas das coisas que estão a acontecer fora das páginas contabilísticas do mundo dos “eles”. Quase tudo o que temos passado nos últimos tempos, sejam preços, bancos, petróleo, revoluções, dívida, quase tudo poderá não mais ser do que o mundo real a responder à falta do sangue que faz mover este sistema das coisas que nos (des)governa…

E levando tal cenário de menos 40% de reservas em consideração, o que poderemos esperar daqui para a frente?
Guerras? Revoluções? Fome? Colapsos? O quê?
Já assistimos a revoluções, já estamos acostumados a ver a fome, já vimos colapsos… aquilo que ainda não vimos, e que nos conta a História acontecer quase sempre em épocas de contracção, foram as guerras, ou guerra:

Obrigado, Chairman Bernanke, por alegremente ter derrubado o dominó de Eisenhower através de uma estúpida e míope negação dos impactos da sua política monetária no preço global dos alimentos e das energias. Obrigado por assumir o lixo do “hedonismo” que distorce os números da inflação, que também o defende por enviar para a rua desempregados quase esfomeados em áreas altamente instáveis do mundo.
No final do dia, Sr. Bernanke, o único grupo que talvez lhe vá agradecer poderá muito bem ser o complexo industrial militar americano… isto assumindo que a máquina de guerra não irá gripar por falta de petróleo.
In Taipan Daily

Conclusão:
Jovens sem tino nem destino, números de um papel escrito por quem os números são deuses… inflação que é bandeira que corrói e ao mesmo tempo defende os deuses dos números… números que são cada vez menos animadores para os grandes desenvolvimentos em forma de solução total desenvolvidos pelo Homem… os “eles” que de nós quase apenas têm só medo, já dão comida de graça para na graça do Zé Povinho voltarem a cair… e dos números para quem os números são deuses, ficamos a saber que o número para o futuro da nossa vida é imensamente inferior ao proclamado… número que na sua essência poderá mais não ser do que mais um algoriticamente embelezado de modo a pintar o nosso mundo num tom mais suave…
E no final?
No final a História é invariavelmente madrasta com os números… num mundo pintado a ilusões…  só nascem, por norma, desilusões…

Notícia da Bloomberg – The Youth Unemployment Bomb
Notícia do Daily Finance – Why Global Food Price Inflation Really Matters
Notícia do Arab Times – Govt starts giving citizens free food
Notícia do The New York Times – Experts Debate Limits of Fish Farming
Notícia da Bloomberg – Bets on $250 Oil Rise as Traders See Saudi, Suez Risk
Notícia do The Guardian – WikiLeaks cables: Saudi Arabia cannot pump enough oil to keep a lid on prices
Notícia do Taipan Daily – Domino Theory and Saudi Arabia Syndrome

A Irlanda e o Fim da Linha

Na Irlanda os perigos continuam à espreita. Crise da banca anula as políticas de austeridade.

Na continuação do artigo E se a Grécia for a Irlanda e Esta o Mundo?, chegam-nos mais uns desenvolvimentos significativos e quais as suas implicações.

A Irlanda cumpriu todos as indicações que emanaram das agências de rating, da Comissão Europeia e do FMI. (Não esquecer este pequeno pormenor)

A Irlanda fez o que outros Estados europeus fizeram, salvaram os seus bancos da ruína, baixaram os salários da função pública e efectuaram cortes drásticos na despesa.

Analisemos a história e os resultado destas indicações e opções das instituições internacionais:

– Em 2008, os três maiores bancos irlandeses tinham acumulado um volume de empréstimos concedidos e investimentos que equivaliam a três vezes o tamanho da economia irlandesa. Hoje em dia, aproximadamente 1\3 desses valores correspondem a crédito mal parado ou a valores de alto risco de recuperação. (1\3 é igual ao volume total da economia irlandesa!)

– Trichet chegou a indicar a Irlanda como o exemplo a seguir pelas economias periféricas da Europa. (Exemplo da mentalidade de visão de curto prazo dos monstros financeiros que nos (des)governam)

– No final do ano, a Irlanda irá apresentar um défice de 10% a 15% do PIB. (10% é o valor apresentado pelo Público e 15% o pelo The New York Times)

– o Anglo Irish Bank ainda irá precisar, no mínimo, de mais 25 mil milhões de euros para conseguir sobreviver, o equivalente a 19% do PIB irlandês e a 1\3 de todas as receitas do Estado. A Standard & Poors considera esse valor muito baixo…

– Os bancos irlandeses têm de saldar 26 mil milhões de euros de dívida em Setembro – este mês. Este valor é o equivalente a 1\5 do rendimento anual da Irlanda.

– O crescimento que a Irlanda apresenta deriva do facto de ser um paraíso fiscal para as grandes corporações internacionais, que quase não pagam impostos. Ora, quase 1\4 do valor do PIB irlandês advêm dos resultados dessas empresas, empresas que mal contribuem para as receitas do Estado irlandês. Conclusão… um crescimento do PIB irlandês não representa directamente um aumento das receitas ou da riqueza do país.

– Em 2015 a cada agregado familiar irlandês corresponderá uma dívida de 200 mil euros! 200 mil euros!

– Poucas dúvidas subsistem que o sistema nacional de saúde, os serviços de saúde em geral e a educação sofrerão cortes radicais na despesa.

Peter Boone e Simon Johnson:

“Posto de maneira simples, a Irlanda parece estar insolvente, tendo em conta os cenários mais plausíveis com as actuais políticas.”

In Público

Até para um leigo isto significa apenas e só uma coisa: INSOLVÊNCIA, na melhor das hipóteses, e bancarrota na pior.

Peguem no que está a acontecer na Irlanda e olhem para o nosso umbigo… as politicas foram exactamente as mesmas… mesmo que os valores aplicados na economia (bancos) tenham sido substancialmente diferentes, os resultados de uns irão reflectir o futuro dos outros, quando em causa estão exactamente os mesmos problemas.

Uma vez mais temos de olhar para as opções quase impingidas pelas agências de rating, pela União Europeia e pelos governos como algo que tem sempre e só uma visão de muito curto prazo e preocupações exclusivas com os sectores financeiros…
Será possível que estas BESTAS sejam assim tão BURRAS?
É possível. Tanto é possível que os resultados são invariavelmente os mesmos: Uma visão economicista sustentada apenas nos números de crescimento dos mercados financeiros e um desprendimento absoluto dos pilares que sustentem a economia: as pessoas e a economia real, ou seja, a economia fora das instituições financeiras, a produtora.

Vai mais uma salva de palminhas para as políticas e políticos que nos desgovernam… clap… clap… clap… clap…clap…

E o comboio desgovernado da economia está prestes a chegar à estação… que imagem nos irá trazer do nosso futuro?

Notícia do Público – Crise da banca anula os efeitos pretendidos com as políticas de austeridade na Irlanda
Notícia do The New York Times – In Ireland, Dangers Still Loom

Moçambique a Dois Tons

Banco Mundial diz que Moçambique protege os investidores. Violência regressa à capital moçambicana.

Nem sei como qualificar o “timing” usado pelo Banco Mundial para proferir estas palavras… é algo digno de figurar nos anais dos momentos mais inoportunos. Um mundo a dois tons.

Diz-nos o Banco Mundial que a economia moçambicana está a a crescer 6,5%, com um mercado de 25 milhões e que é um país atractivo para o investimento.

Sinceramente nem sei como escrever sobre isto tal a sua insensibilidade social e grotesca forma de análise económica…

Para mim isto é um sinal de medo… medo que as populações possam colocar em causa os investimentos que eles têm por lá… medo que aconteça por lá o que aconteceu na Bolívia, em que o Zé Povinho boliviano, depois de ficar a saber quem era realmente o mau da fita, correu com eles.

O mundo visto pelos olhos destes monstros financeiros tem apenas uma cor, a cor do dinheiro. A sua invulgarmente vulgar forma de análise da vida retira sempre as pessoas da análise. O que interessa que Moçambique esteja a crescer 6,5% se o fosso entre pobres e ricos é cada vez mais acentuado? O que interessam 6,5% se a pobreza extrema é o fato que a maioria da população veste todos os dias? O que interessa 6,5% se a água, o pão e a energia em vez de serem bens para todos, são cada vez mais bens apenas para alguns… mas o que interessa os 6,5%!!!!
Realmente importante e significativo era saber que menos 6,5% da população já não vivia num estado de pobreza extrema… agora 6,5% a mais para os mais ricos é igual a ZERO!

É um paraíso para o investimento… pudera, com tanta pobreza com uns cobres dá para comprar meio mundo… vergonha, vergonha, vergonha!

Moçambique protege os investidores?
E o povo? Onde está a protecção do povo? Tenham dó!!!!

Voltando à Bolívia, vou só relembrar o que por lá se passou, que é exactamente o mesmo que se está a passar em Moçambique, com a única diferença de ser no outro lado do globo:
– Em Setembro de 1998. O Banco Mundial (FMI) aprova um empréstimo de 138 milhões com a condição que o governo boliviano privatize as refinarias petrolíferas e o sistema de águas publicas.
– Em Julho de 1999. O Banco Mundial publica um relatório a dizer que nenhuns subsídios deverão ser aprovados para aliviar o fardo do aumento do preço da água.
– Em Setembro de 1999. O governo boliviano arrenda o sistema de águas a empresas privadas.
– Janeiro de 2000. As populações começam a revoltar-se contra o elevado preço da água.
– Fevereiro de 2000. As manifestações tornam-se violentas.
– Março de 2000. Num referendo, 96% da população diz estar contra a privatização das águas.
– Abril de 2000. As manifestações transformam-se em pequenas revoluções por todo o país, com centenas de feridos e mortos.
– Abril de 2000. O governo cede e volta atrás com a privatização das águas.
– Abril de 2000. O Banco Mundial volta a reafirmar que as águas não deverão ser subsidiadas, porque esse dinheiro é um desperdício económico.
– Agosto de 2000. O Presidente colombiano demite-se.
– Fevereiro de 2002. Aguas del Tunari e Bechtel exigem uma indemnização de 25 milhões de dólares por danos à operação.

Estará isto a ser conduzido de forma diferente em Moçambique?
Serão as imagens de revolta que nos chegam de Moçambique diferentes do que se passou na Bolívia?

Sabiam que o governo do Malawi rejeitou o plano de energia moçambicano, apoiado pelo Banco Mundial, por ser demasiado dispendioso?
Quem acham que está a pagar por isso?

Haverá algum órgão de comunicação em Portugal que tenha “tin-tins” para desmascarar o que se passa em Moçambique e qual a profundidade das acções do Banco Mundial no escalar dos problemas?
Duvido, mas a esperança é a última a morrer, e eu ainda espero estar vivo no dia em que os Zé Povinhos do mundo consigam acabar com a acção destes monstros sanguinários, verdadeiros seres das trevas financeiras, exemplares do pior que existe na nossa espécie…

Notícia do Diário Económico – Moçambique protege os investidores
Notícia do Diário Económico – Violência regressa à capital moçambicana
Notícias de apoio:
Notícia do OJE – Banco Mundial e Moçambique assinam em Junho acordo de 65 milhões de euros para o sector energético
Notícia da Bloomberg – Malawi Rejects World Bank-Backed Mozambican Electricity Plan as Too Costly
Notícia do The Nation – The Politics of Water in Bolivia
Notícia da Reuters – World Bank tried to “blackmail” Bolivia: Morales
Notícia da PBS – Timeline: Coachamba Water Revolt

E se a Grécia for a Irlanda e Esta o Mundo?

Cerca de 36% das empresas irlandesas apresentam um “elevado risco” de colapso. Anglo Irish Bank vai ser salvo com 25 mil milhões de euros. Banco irlandês anuncia uma perda colossal de 8,2 mil milhões de euros no primeiro semestre. Divida soberana europeia:  Estará o round 2 ao virar da esquina?

36% das empresas irlandesas em risco de falência?! 38 mil empresas em risco de fechar as portas?!
Um estudo mostra que muito dificilmente as empresas supracitadas irão conseguir cumprir com as suas obrigações comerciais e financeiras.

Andávamos a olhar para a Grécia, mas o que nos chega da Irlanda é do mais explosivo que se podia imaginar.
1/3 da economia em risco iminente de colapso? Isso será bancarrota para a Irlanda, para a Grécia e para Portugal, e para… e para… … … …

Podemos sempre esperar que o pacote de ajuda da União Europeia às economias titubeantes venha a surtir efeito. Pessoalmente, não acredito que a solução para uma bolha económica seja a criação de outra bolha, tanto mais que ao contrário daquilo que se passou em 2007/2008 o Banco Central Europeu não tem muito mais espaço de manobra para reduzir as taxas de juro, que já estão apenas a 1%. Poderá sempre tentar baixá-las para zero, mas acho que será apenas uma questão de tempo até a verdadeira economia voltar para pedir dinheiro ainda mais barato…

Para juntar às dores da Irlanda e dos PIIGS o facto do Anglo Irish Bank ter apresentado uns monumentais 8,2 mil milhões de euros de prejuízo no primeiro semestre deste ano, e do Estado irlandês estar a preparar a injecção de 25 mil milhões de euros para salvar as contas desse banco. Desde 2007, o Estado irlandês, até à data, já injectou 22 mil milhões de euros!
Não sei se conseguem ver a profundidade do problema… esta instituição não está falida está mesmo completamente em ruínas e mesmo assim o Estado irlandês vai continuar a tentar salvá-la.

E o resultado imediato disto é a reacção dos mercados às dívidas soberanas dos PIIGS.
Para quem tiver estômago e coração forte aconselho a visualização dos gráficos presentes no Daily Finance. Quem não tem estômago deixo só uma dica: Portugal está muito além da linha de segurança, mas muito além… tão além que vou enviar um Email a quem escreveu o artigo a perguntar se não se enganou nos gráficos na cor atribuída a Portugal…

Um pouco de história:
Aquando do colapso da bolha dot.com de 2001 (colapso dos mercados devido à depreciação das acções ligadas à internet), a resposta dos principais bancos centrais do mundo ocidental foi a redução das taxas de juro. Esta baixa no preço do dinheiro criou uma bolha ainda maior, a bolha imobiliária, que foi alimentada por uma redução das taxas de juro dos empréstimos bancários e a uma corrida aos bancos por parte do comum dos cidadãos para comprar casa.
Em 2007/2008 assistimos ao implodir da bolha imobiliária que culminou com a falência do Lehmans Brothers e a injecção de biliões de euros na economia mundial.
Para além do dinheiro injectado, o que acham que os bancos centrais fizeram? Baixaram ainda mais as taxas de juro (o preço do dinheiro) até a um nível em que o custo do dinheiro nos Estados Unidos está apenas 0,25% acima de zero, e na Europa a 1%.
O espantoso disto é que a fórmula que foi usada para fazer crescer a economia pós 2001, e que gerou a bolha imobiliária e o colpaso de 2007/2008, foi a mesma que foi usada para fazer a economia crescer no pós 2007.
E sabem qual é a bolha que está desta vez a ser criada por essa medida? A bolha da dívida soberana, que é apenas e só a mãe de todas as bolhas!
Desta vez não será um Lehmans a cair. Desta vez os bancos centrais já não conseguem baixar mais o preço do dinheiro. Desta vez poderá ser…
Como acham que irá ser desta vez?

Notícia da CNBC – About 36% of Irish Firms at ‘High Risk’ Of Collapse
Notícia do Público – Banco irlandês anuncia perda colossal de 8200 milhões de euros no semestre
Notícia da CNBC – Anglo Irish Bank Sees $32 Billion Bailout Bill
Notícia do Daily Finance – Europe’s Sovereign Debt Crisis: Is Round Two Around the Corner?

Mais um Pouco Sobre o Carrossel da Economia

O mercado imobiliário americano entrou em “double-dip”. Estímulo americano à economia ficou mais caro que a guerra no Iraque. Hindenburg volta a aparecer. Analista afirma que o DOW vai cair até aos 5.000. Presidente da Reserva Federal de Chicago diz que o risco de um “double-dip” na economia é cada vez maior. Défice alemão duplica.

Tenho passado uns dias calmos em relação à escrita sobre a economia… estava apenas à espera que as nuvens cor-de-rosa pintadas à força fossem desvanecendo e dando lugar à verdadeira cor que paira no ar… escurinha…

A primeira diz-nos que o mercado imobiliário americano já entrou em “double-dip”.
Para os mais distraídos, quando em 2008 o mercado imobiliário lá por aquelas bandas iniciou a sua primeira viajem no carrossel do desespero, cá deste lado fomos apanhados e quando demos por nós já íamos de boleia. Já não existe o lá e o cá, existe apenas um agora por lá e daqui a pouco por cá. É o jogo do toma-lá dá-cá…
Irá desta vez ser diferente?…

Ficamos também a saber que os pacotes de estímulo à economia americana ficaram mais caros que a guerra no Iraque.
Antes de falar directamente sobre o tema desta notícia, apenas salientar a verdadeira loucura abstractamente tresloucada americana de estar a conduzir duas guerras, reduções de impostos e um pacote de estímulo à economia, tudo em simultâneo. Digo que isto talvez seja comparável a um agregado familiar que tenha um rendimento mensal de mil euros e com ele comprar dois Ferraris, quatro mansões em Ibiza e mais uns quantos iates… e talvez ainda um aviãozinho particular…nada demais…
Em relação à notícia, ficamos a saber que o total dos estímulos à economia custaram mais 15% do que o combinado de todos os anos da guerra no Iraque, algo como 100 mil milhões de dólares mais!
Vai mais uma volta no carrossel dos chanfrados?

Hoje também fiquei a conhecer o “Presságio Hindenburg”.
Mas que raio é isso, perguntarão vocês? Foi o mesmo que eu fiz quando tive conhecimento dessa coisa com nome de filme de terror.
Ora, o “Presságio Hindenburg” (Hindenburg Omen) é um modelo de análise técnica que nos dizem ser capaz de prever as quebras dos mercados bolsistas.
Pois, eu também fiquei a abanar a cabeça depois de ler isso, mas não é que existe muito boa gente no meio de Wall Street que acredita convictamente nesse modelo de análise com um nome tão “sui generis”.
O modelo prevê um colapso das bolsas mundiais em Setembro – Já começo a compreender o porquê do nome tipo filme de terror.
Para ficarmos mais descansados também nos é dito que o modelo só acertou em 25% das suas previsões desde 1987 – Não sei quantos colapsos das bolsas aconteceram desde então – não apenas os mundiais, também os localizados… mas é melhor não deitar foguetes antes da festa porque também nos dizem que acertou em todos os colapsos…
Agora o carrossel entrou na casa do terror, em que estado irá sair de lá?

Uma pesquisa de Charles Nenner – ainda não conhecia e vou ler mais sobre ele – diz que o DOW Jones vai cair até aos 5.000 pontos nos próximos dois a dois anos e meio. Será este mais um enviado das profundezas do terror?
Irá chegar a deflação acompanhada de uma nova forte recessão que empurrará os mercados até esse valores – exceptuando os dos bens alimentares. “Isto parece mesmo muito mal para os próximos 10 anos”, palavras de Nenner.
Mais um vidente com poderes sobrenaturais a prever como irá ser o futuro, ou apenas mais um dos incontáveis estudos que cada vez mais frequentemente dizem que o carrossel está prestes a apanhar uma descida acentuada?

Para nos confirmar um pouco se os presságios com nomes de filme de terror e os videntes têm alguma hipótese de estar correctos, nada melhor do que ouvir as expectativas de um dos “casineiros” que trabalha para o casino chamado Reserva Federal Americana.
Ele diz que os riscos de uma nova recessão são cada vez maiores… quer dizer na entrevista que ele dá nem sequer faz menção a um indicador positivo, quanto mais a um cenário cor-de-rosa.

E ainda… a estrondosamente poderosa e forte Alemanha, que cresce a olhos vistos, deixando todos os analistas de olhos em bico, apresentou um resultado em que o défice do Estado duplicou. Esperem lá… Pessoalmente as minhas finanças crescem quando eu poupo mais do que gasto. Terá sido o crescimento Alemão neste último trimestre resultado de apoios do Estado à economia que ainda não foram divulgados, ou que estão escondidos entre algum embrulho político com um nome pomposo de lei? Não esquecer que das medidas mais apertadas de controlo do défice e controlo da despesa foram as assumidas pelo governo alemão…
Lá estranho isto é!

Conclusão:
O carrossel está uma vez mais a ganhar balanço para entrar numa cada vez mais provável descida. Apertem os cintos e deitem as pipocas fora que esta coisa pode apanhar uma velocidade dos diabos…

Notícia da CNBC – Housing in ‘Double-Dip’: Economist Zandi
Notícia do The Examiner – Little-known fact: Obama’s failed stimulus program cost more than the Iraq war
Notícia do The Wall Street Journal – Yes Folks, Hindenburg Omen Tripped Again
Notícia da CNBC – Dow Faces Bouncy Ride to 5,000: Strategist
Notícia da CNBC – Risk of Double-Dip Recession Has Risen: Fed’s Evans
Notícia do Diário Económico – Défice alemão duplica para 3,5% do PIB

E os Meninos à Volta da Fogueira

Défice do subsector Estado aumenta 347 milhões. Défice aumenta e está perto dos 9 mil milhões de euros. Défice cresce 1,65 milhões de euros por dia. No mês passado, o Estado contraiu dívida extraordinária no valor de 4,1 mil milhões de euros.

Antes de começar a descarregar os impropérios que estas noticias merecem, umas pequenas notas para se contextualizar melhor a situação:
1- A receita fiscal este ano cresceu, nos primeiros sete meses, 5,6%.
2- Os dados mostram que a despesa continua a subir mais que a receita – 3,8% para 3,6%
3- Parte do valor do aumento da receita é devido ao aumento do excedente da Segurança Social, mais 180 milhões de euros, aproximadamente.
4- O total de dívida extraordinária contraída pelo Estado este ano já é de 7,6 mil milhões de euros.
5- O Estado este ano já se endividou em 13,5 mil milhões de euros. Em 2009 (todo o ano) o endividamento foi de 14 mil milhões de euros.
6- Nunca desde que há registo o Estado recorreu com este peso a dívida extraordinária de curto prazo.
7- O Governo dá a garantia que o o défice previsto para este ano não será ultrapassado.

Vamos então lá à análise estes dados…

1- Bom sinal… o contrário é que seria surpreendente… mas atenção que os dados do consumo estão em queda, algo que poderá aumentar a pressão sobre estes valores positivos.

2- Pois é, alguns não têm de poupar tanto quanto outros, e principalmente vivem num Estado de (des)direito em que podem fazer o que bem lhes passa pela moleirinha, dizendo que fazem uma coisa e depois agem de forma oposta.

3- Pois é, parte dos 5,6% de aumento da receita são atribuíveis ao aumento do excedente da receita da Segurança Social. Uma pergunta: “Com o aumento do desemprego, como é que eles conseguiram fazer crescer esse valor? Número mistério?” Infelizmente não é… este aumento está directamente ligado ao apertar da fiscalização sobre os beneficiários da Segurança Social, medidas que na sua essência estou de acordo, mas das quais discordo quando olho para as contas de quem devia de estar a poupar mais e não o faz… e é com os mais pobres que eles apertam o cinto…

4- Dívida extraordinária? É simples. São empréstimos que terão de ser pagos ainda este anos. 7,6 mil milhões de euros, somados aos juros dessas operações, deverá ficar algo acima dos 8 mil milhões de euros. Portanto, podemos concluir que o Estado espera que o aumento da receita cresça ainda muito mais, de forma a compensar esse aumento. (Conto de fadas?)

5- Vamos reduzir o défice! Slogan para o aumento dos impostos. Resultado? Pois bem, o resultado é o aumento do défice este ano. Ou iremos assistir a um passo de mágica ou então para o ano lá virá novamente o choradinho político e financeiro dizer que os impostos terão de aumentar.

6- Sinal de descontrolo e loucura, ou pura ganância e indiferença pelas contas do Estado? Talvez seja apenas e só incompetência – forma mais simplista de analisar a questão, ou então a imagem de um esquema em pirâmide que está entrar na sua fase de crescimento exponencial imparável.

7- … (por vezes o silêncio diz tudo e sem impropérios)

Vamos todos dar as mãos e fazer uma rodinha à volta da fogueira… vamos todos dar saltinhos de alegria, vamos todos comemorar… abracemos quem ao nosso lado está, pensemos no futuro risonho que nos espera… sonhemos alto porque a vida é sempre para melhor… traláli, tralálá…
Estas são frases que o Zé Povinho devia cantar de alegria, mas no sistema demo-cratico em que vivemos estas são as palavras que os “bananas” e os “casineiros” usam para festejar a vida no seu quintal privado chamado Portugal…

Notícia da A Bola – Défice do subsector Estado aumenta 347 milhões
Notícia do Diário Económico – Défice engorda e está perto de nove mil milhões de euros
Notícia do Correio da Manhã – Défice sobe 1,65 milhões por dia
Notícia do Jornal de Negócios – Governo contraiu dívida extraordinária de 4,1 mil milhões no mês passado

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