Na Ignorância dos Comuns

Mais uns dias passaram e mais uma vez senti que informação extremamente importante acabou por passar quase despercebida por entre as malhas da racionalidade colectiva. Foi informação que se foca especialmente em Portugal, mas que infelizmente é em larga medida reveladora do racional das elites institucionalizadas presentes um pouco por todo o mundo ocidental, e não só.

 1bancos

o Governo quer que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social passe a investir 90 por cento da carteira da poupança dos portugueses em dívida pública nacional. Na prática, significa aumentar de 6 para 10 mil milhões de euros as aplicações da Segurança Social em dívida nacional.
Jornal de Notícias

Antes de mais, o significado de “investir”: “ECONOMIA – aplicar capitais com o intuito de obter um valor suplementar”
A pergunta que se segue é: que valor suplementar existe para a Segurança Social, e para as pensões, que o dinheiro seja “investido” em dívida pública nacional? Que valor? Algum?
Alguns com um racional menos matemático irão provavelmente afirmar que tal serve para garantir a sustentabilidade das contas públicas. Para esses digo apenas isto: peguem numa máquina de calcular e façam contas à dita sustentabilidade das contas públicas – são impagáveis qualquer que seja o caminho tomado que não o de não pagamento de uma parte significativa da mesma. E não, não é não pagar porque assim desejamos, mas porque é matematicamente impossível. É só fazer contas.

se o Estado português claudicar no falhanço das reformas estruturais e o Estado nunca controlar o défice (continuando a endividar-se), isso significa que os trabalhadores portugueses vão ser o primeiro dano colateral dessa política. Quem faz descontos estará literalmente a financiar a dívida pública, sem qualquer diversificação, prudente, dos ativos da Segurança Social
Jornal de Notícias

Ainda poderia existir uma esperança aninhada em bons resultados das políticas seguidas, mas nem isso serve de porto minimamente seguro para justificar a aceitação passiva desta medida, porque como todos estão a par, ou deviam, não tem sido alcançado quase nenhum dos resultados económicos propostos.
E se então é matematicamente impossível, porque razão as nossas elites institucionalizadas queimam o racional incontornável da impossibilidade e tentam tornar o impossível em possível?

É um plano maquiavélico de Gaspar e da troika. […] sempre que alguém reclamar perdão da dívida para Portugal isso significará, não só uma hecatombe nos bancos portugueses, carregados de dívida pública, mas também a perda das poupanças amealhadas pelos portugueses na Segurança Social. […] Portanto, não nos esqueçamos: sempre que quisermos um perdão de dívida de (30… 40… 50… por cento) será essa percentagem que desaparecerá da Segurança Social. Com uma diferença entre os credores internacionais e nós: eles beneficiaram de juros elevados, durante muitos anos; nós entramos com a casa a arder apenas para os ajudar a perder menos dinheiro.
Jornal de Notícias

Eis o trabalho que há muito anda a ser feito. Perante a impossibilidade matemática de pagamento, estes anos têm sido quase exclusivamente usados para espoliar o máximo possível tudo o que seja passível de transferência para os credores internacionais – Elites institucionalizadas, mesmo que isso venha a significar a destruição do sistema social que segura a democracia, ampara a sociedade moderna e que, para uma fatia cada vez mais significativa da população, significa a diferença entre vida e morte. Eles – elites institucionalizadas – estão bem a par do dano que tais medidas irão causar. Estes são sinais que nos comprovam que a sua causa não é a nossa, por muito que os sound bytes nos desejem fazer crer o contrário.
Esta medida é imensamente mais gravosa do que era a TSU, e no entanto o povo ficou sereno, está sereno e quase nem se manifestou mentalmente perante este racional que em nada defende o futuro e o interesse público. Mais um silêncio da ignorância auto-infligida e, em muito casos, desejada.
Mas tal como reza a História, o povo é sereno até ao dia em que deixa de ser. Tal como assistimos hoje na Turquia, depois de silêncios de ignorância acumulados ao longo dos anos, o povo deixou a serenidade de lado e reagiu de forma descontrolada perante algo quase supérfluo, quase incrível, uma gota de água. O copo transborda quase sempre quando menos se espera e, quando transborda dessa forma, explode invariavelmente de forma violenta…

Turquia proíbe consumo de álcool das 22h às 6h e restringe publicidade
Folha

Portanto, estamos em Portugal, na Europa e não só, perante uma elite institucionalizada que não segue a causa dos comuns, que continua a encher gota-a-gota o copo do descontentamento, que continua na esperança que a ignorância auto-infligida da maioria dos comuns lhes continue a dar margem para espoliar ainda mais e mais, até…

O potencial para a instabilidade social em países da União Europeia é maior do que em qualquer outro lugar no mundo e as lacunas já abissais entre ricos e pobres, um importante gatilho, tendem a aumentar globalmente
Reuters

Será o mesmo neoliberalismo [palavra que esconde o espoliar dos comuns em favor de uma elite institucionalizada] político que tanto encanta as elites, a causa da sua própria destruição. O problema mor é que essa destruição significará muito provavelmente uma destruição acentuada nos comuns, na sociedade e na democracia.

O paradoxo que mais me revolta é o dos países que enriquecem mas cujos habitantes empobrecem. […] Qual a utilidade da democracia, interrogam-se, se ela não consegue protegê-los deste insólito abandono? Se ela não aperfeiçoa rapidamente as condições materiais da sociedade? […] as revoltas voltarão – e o Portugal de hoje é um exemplo disso. É uma questão de oportunidade e de tempo. […] É isto que a globalização pretende? É isto que o actual governo de Portugal pretende?
Jornal I

De que serve a democracia quando deixa de funcionar em prol dos comuns e passa funcionar em benefício das elites institucionalizadas, democracia essa que foi delapidada principalmente por causa da desresponsabilização dos comuns perante uma das suas mais importantes obrigações em democracia: controlar os abusos? A resposta, como reza invariavelmente a História, será primeiro uma convulsão contra a democracia, seguido de um tempo de anarquia, acabando nas mãos de um líder que arrasta as massas.
Que líder frequentemente acaba por ser esse?

Não era apenas porque os seus símbolos se pareciam com suásticas. […] Mas sim porque eram tantos. Homens e mulheres enraivecidos gritando furiosamente “A Grécia é dos gregos” […] Como os soldados que lhes servem de modelo, os gregos que subscrevem o dogma ultra-nacionalista neo-fascista do Golden Dawn são os primeiros a dizer que estão em guerra.
Business Insider

Na ignorância auto-infligida da maioria dos comuns costumam nascer resultados que são contrários aos desejos da esmagadora maioria deles mesmos. A falta de um porto seguro, uma democracia viva e dinâmica – culpa do seu alheamento do controlo de abusos –  conduz frequentemente à capitulação da sociedade a ideais que lhes dizem oferecer espaço para um novo e mais seguro porto. A restante história desse novo e aparente porto seguro está escrita na História recente da Alemanha, de Itália, do Brasil, da Argentina, de Portugal, de Espanha, da Tunísia, do Uruguai, do Chile, do Panamá, do Zimbabué, da África do Sul, do Japão, da China, da Rússia, de Mianmar e de tantos e tantas outras largas dezenas de exemplos iguais de tiranias.

Irá desta vez ser diferente?
Iremos desta vez largar a ignorância auto-infligida e promover um espaço comum melhor?

Os sinais são tudo menos auspiciosos. Uma vasta maioria dos comuns continua a defender e acreditar nas elites institucionalizadas, as mesmas elites que mentem, manipulam, espoliam e destroem a democracia, a sociedade e a vida. E não, não é estar contra e culpar tudo o que  os político fazem e dizem que os comuns estarão a conseguir escapar da ignorância auto-infligida, bem pelo contrário! As pseudo-elites políticas são alvos de arremesso posicionados pelas verdadeiras elites que dominam o mundo para afastar a atenção dos comuns. As verdadeiras elites são transnacionais, são apátridas, não têm os valores dos comuns e traçaram o caminho da destruição, porque é na destruição que mais capitalizam as suas valias; na guerra, na fome, na destruição ambiental, no roubo da economia que devia ser para todos.

O capital global, na forma de corporações multinacionais assim como multimilionários, estão a ganhar enorme poder de negociação sobre os países. As empresas globais não estão interessadas em melhorar a qualidade de vida num determinado país nem na melhoria de competitividade de uma nação. O seu único objectivo é a maximização dos retornos para os seus investidores.
Business Insider

São estas as verdadeiras elites institucionalizadas.
Muitos perguntam: O que podemos fazer contra elas?

Qualquer tentativa de aumentar o poder das nações ou grupos de nações em relação às corporações e multimilionários globais irá certamente provocar uma reacção feroz. Os lóbies financiados pelas corporações, os seus advogados, os seus operacionais políticos, os impérios de média, as doações de campanhas políticas, os grupos de intelectuais e o engodo de lugares bem pagos no estado irão todos ser destacados em oposição a tais intenções.
Business Insider

E voilá, ei-los – as elites – realmente preocupados. E então não será antes por aqui e não ficar apenas a lançar tomates às cores e caras políticas que são trocadas pelas verdadeiras elites como quem muda de fralda, e direccionar o colectivo dos comuns exigindo às verdadeiras elites imutáveis a cedência de controlo para as nossas mãos, as mãos do povo?
Quando os comuns não conseguem ver o verdadeiro inimigo, a História já está escrita, será apenas e novamente revista.

O 1% mais rico controla actualmente 39% da riqueza no mundo, e é provável que o seu quinhão continue a crescer
CNBC

Como poderão a democracia e a sociedade moderna sobreviver num mundo em que uma mão cheia de indivíduos são mais ricos que nações, em que se podem dar ao desplante de comprar “todos” os políticos que desejam?
Já chega de andarem a fazer cócegas às elites culpando as caras dos políticos por tudo. Já chega!
O que está a acontecer não é algo novo, a História está repleta de momentos em que a sociedade viveu exactamente o mesmo tipo de situação que hoje vive, é apenas na ignorância auto-infligida dos comuns que tudo parece ser a primeira vez.
Para os mais esquecidos e mergulhados na sua ignorância talvez as palavras de Plutarco, que viveu de 46 – 120 d. C, possam ajudar uma qualquer coisinha:
“Uma desigual distribuição de riqueza entre os ricos e os pobres é a doença mais antiga e fatal de todas as repúblicas.”

E assim vamos caminhando para o fim deste texto, e também talvez estejamos todos a caminhar para um reinício civilizacional – frase que poderá agradar a muitos daqueles que já se consideram “acordados” para estas questões, dos quais muitos dos que conheço se esquecem, ou desejam não ter de se lembrar, que antes de um reinício existe sempre um fim, fim que só muito raramente termina de forma pacífica e sem avultados danos nas vidas comuns. Portanto, também para aqueles que lutam cegamente por um reinício, ficam as palavras de que lutar por um reinício sem acautelar os danos do fim e sem se tratar da forma de como reiniciar com o menor de danos é ignorância auto-infligida equiparável à ignorância auto-infligida dos comuns que ainda não “acordaram”. Destruição é sempre destruição…

O tempo acaba sempre por levar os grandes projectos e organizações humanas, incluindo as civilizações, ao seu fim. As civilizações são sistemas adaptativos complexos que funcionam em equilíbrio instável à beira do caos.
Público

E talvez, como no último texto que escrevi, a informação seguinte seja demasiada para aqui estar. Mas tal como no outro texto, há informação que dada a sua possível perversidade para com a sociedade e silêncio dos meios de informação para as massas será sempre vista e sentida como “demasiada”.

A reunião anual que junta realezas, primeiros ministro e chefes de multinacionais – famosa por ser envolta em secretismo – vai este ano ter lugar no Reino Unido […] O véu de secretismo que envolve estas reuniões, que bane a participação de jornalistas, tem alimentado muitas teorias da conspiração, incluindo que os participantes estão a conspirar para dominar o mundo.
Daily Mail

E pronto, assim fechei este texto com mais uma história de “doidinhos”, mas – apenas como um ínfimo exemplo – relembro aos “sãos” que ainda ontem a União Europeia era uma instituição só com virtudes e que quem se atrevesse a dizer o contrário era conotado como “doidinho”…

Posted on 04/06/2013, in Artigos, Corrupção, Economia and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. E pouco se fala na bolha imobiliária em Portugal, que irá acabar por causar o pedido de um 2º resgate, devido à banca ficar com património líquido negativo…

  2. Boas Claymore.

    De todas as coisas más que envolvem Portugal actualmente, uma das “menos más(?)” é o tamanho da bolha imobiliária que cresceu em Portugal. Mesmo estando a estourar, está a fazê-lo de forma mais lenta porque o tamanho da bolha era muito menos pronunciado que na maioria dos países europeus. O lado negativo é que a continuada destruição da economia nacional poderá fazer que até uma bolha de dimensão aparentemente controlável possa vir a tornar-se ingerível. Mas neste ponto, ainda não chegámos ao ponto sem retorno… ainda…
    «”os preços praticados em Portugal eram já dos mais baixos da Europa”.»
    http://www.publico.pt/economia/noticia/preco-da-habitacaoportugal-desce-nove-lugares-em-ranking-europeu-1582057
    P.S: O minha mOsca não acredita nas contas patrimoniais da banca. Tantas são e foram as jogadas no casino e os retoques e jeitinhos nos livros – permitidos por lei – que é virtualmente impossível verificar a veracidade dos mesmos. Só depois de uma falência e passados uns anos – como está a acontecer com o BPN – é possível contabilizar todos os buracos que por lá andam. É elevada(?) a probabilidade de não existirem bancos com património líquido positivo…

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