Os Antípodas da Realidade que nos é Pintada…

Nos antípodas da realidade que nos é pintada (à força) estão a Islândia e a Grécia, ou Portugal, ou a Irlanda, ou a Espanha, ou a Itália, ou os outros que obviamente se seguirão, a não ser que o mundo “acorde”. Desses antípodas é-nos continuadamente dito, transmitido, exclamado, escrito, proclamado de forma descomplexada que a presença de um país no euro é essencial, vital, importante, inquestionável, positivo, entre outros adjectivos, de tal forma que a esmagadora maioria do Zé Esquecido (povo) é esmagado pela sua própria incapacidade critica em relação à relação de promiscuidade existente entre os poderes políticos, económicos (casinos) e aqueles que deviam ter a função de informar. Chega a ser cómica a forma como o mundo nos é pintado pelos meios de comunicação generalistas, pelos seus pseudo-experts, pelos seus comentaristas de banca(da), tal a forma tendenciosa/silenciosa, pretensiosa e insistentemente quase ignorante como aborda os temas centrais que afectam o nosso dia-a-dia, o nosso futuro mais próximo, o nosso real futuro daqui a uns anos.

Islândia. Quantas vezes nos últimos anos ouvimos, lemos, vimos na televisão falar dela?
Porquê o continuado silêncio em relação ao que se passa na Islândia?

Quando em 2008 emergiu a crise dos mercados de crédito, os três maiores bancos comerciais islandeses colapsaram. O rating da dívida da Islândia caiu a pique até ao nível de lixo. O valor da sua moeda, a krona, desvalorizou-se acentuadamente e entrou numa profunda recessão económica.
In Marketwatch

Não foi a Islândia o primeiro país a cair por culpa da crise de 2008?
Se foi, porque razão desapareceu dos escaparates da comunicação que nos fazem chegar (à força) a nossas casas, às nossas mentes?
Porquê? Alguma razão terá de existir…

Na sexta-feira, a Fitch subiu o rating da Islândia de BBB- para BB+. A subida marca a passagem da dívida da Islândia de lixo de volta para nível de investimento. Ao mesmo tempo, a Fitch declarou as expectativas económicas para a Islândia como estável, algo que era visto como inatingível há três anos.
In Marketwatch

Wow! Mas o que fez de diferente a Islândia para andar em contra-ciclo com a Europa do euro?
O que fez a Islândia para fazer da desgraça que a envolveu em 2008 forças para se reerguer?

(…) os islandeses reconheceram imediatamente que tinham construído uma casa de cartas e tomaram medidas drásticas para recuperar o que fora envolvido, entre outras coisas, nacionalizaram um banco e passaram o controlo dos três maiores bancos para o equivalente a uma comissão de credores.
In Marketwatch

Não parece substancialmente diferente daquilo que foi feito pela Europa fora, não é verdade? Mas cuidado, as aparências iludem…

A estratégia de desvalorização e de controlo de capitais salvou a economia. (…] O país manteve intacto o seu sistema social nórdico e preservou a coesão social. Está novamente calmamente a voltar à prosperidade, mesmo que as dívidas privadas ainda sejam um fardo. (…) O resultado é justificativa para moedas nacionais e bancos centrais nacionais com capacidade para responder a choques.
In The Telegraph

Eis a diferença substancial; (para além do enorme “detalhe” da Islândia ter congelado os pagamentos de dívidas externas dos seus bancos que foram judicialmente consideradas abusivas e lesivas do estado de direito ) o controlo de capitais e a independência. Tudo aquilo que a Grécia, Portugal, entre outros, perderam com a entrada no euro foi o mesmo que salvou a Islândia, não só mas também.
E agora, Srs. dos meios de comunicação generalistas, pseudo-experts e comentaristas de banca(da), qual a justificação para justificar a lenta morte do estado social, o aumento do desemprego, a baixa de salários, a austeridade? Acho que terão de começar a cozinhar outras explicações para justificar o que se apresenta como injustificável.
Sabem uma coisa, a Islândia também adoptou a austeridade, mas foi uma austeridade virada para os interesses do país e não para os interesses dos credores de um país, não em favor dos casinos (banca), não em defesa das elites. E eis o seu resultado:

O desemprego irá cair de 7% no ano passado para 6,1% este ano e para 5,3% em 2013. O défice era de 11,2% em 2010. Irá encolher para 3,5% este ano, e será quase inexistente no próximo ano.
In The Telegraph

Em comparação…

(…) a Grécia está a evoluir para algo sem precedentes na experiência ocidental moderna.  Desde 2009 faliram um quarto de todas as empresas gregas, e metade de todos os pequenos negócios no país dizem não conseguirem cumprir as suas obrigações com os salários. A taxa de suicídio aumentou 40% na primeira metade de 2011. Surgiu uma economia de troca directa, com as pessoas a tentarem viver num sistema financeiro falido. Quase metade da população com menos de 25 anos está desempregada. Em Setembro, organizadores de um seminário patrocinado pelo governo de emigração para a Austrália, o evento tinha tido uma adesão de 42 pessoas um ano antes, foi inundado quando se inscreveram 12.000 pessoas. Os banqueiros gregos disseram-me que as pessoas levantaram um terço do seu dinheiro das contas bancárias; muitos, ao que parece, guardam as suas poupanças debaixo do colchão ou enterram-nas no jardim de casa. Um banqueiro, que hoje em dia parte do seu trabalho é tenatr persuadir as pessoas a deixar o seu dinheiro no banco, disse-me, “Quem pode confiar num banco grego?”
In Business Insider

Quem realmente pode confiar numa comunicação social que se remete constantemente ao silêncio daquilo que é contraditório à verdade que à força desejam passar?
Quem pode acreditar nos pseudo-experts e comentaristas de banca(da) que preenchem as páginas de opinião, a opinião na rádio e na televisão?
A Islândia não é um “case study”, a Islândia é apenas mais um exemplo de como reagir a choques económicos. Este tipo de acção foi anteriormente também tomado pela Argentina -apenas como mais um exemplo-, essa que actualmente cresce 9% ao ano há uma década. E que tal o Equador?

Por cá, pelo nosso burgo de burgueses mentais, as coisas estão como estão… não como na Islândia, infelizmente, pois por cá o silêncio das verdades inconvenientes para as elites é a chave de ouro que sela a ignorância que pauta o estar do seu Zé Esquecido.

Nove meses depois da troika, tudo falha (…) Está a falhar na economia. Ela encolheu 1,5% em 2011. (…) Está a falhar nas contas públicas. O défice em 2011 foi superior, em 1.893 milhões de euros, ao previsto no Orçamento do Estado. Sim, a despesa desceu mais 440 milhões de euros do que estava previsto, mas as receitas ficaram 2.332 milhões de euros abaixo. Dados da Unidade Técnica Orçamental da Assembleia da República. A dívida portuguesa aumentou em quase 20% do PIB entre o terceiro trimestre de 2010 e o mesmo período de 2011. (…) Está a falhar na vida das pessoas. O desemprego atingiu os 13,6 por cento. É a terceira maior taxa de desemprego da OCDE. Em Dezembro, 31% dos jovens portugueses com menos de 25 anos estavam desempregados. (…) Desculpem só ter números para vos dar e faltarem-me as frases mobilizadoras sobre os efeitos regeneradores da austeridade. Está a ser um desastre.
In Expresso

E para os amantes incondicionais das mais valias do euro – sejam elas o que forem…

A taxa de desemprego de 2011, hoje divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), é mais do triplo da registada em 2001.
In Sol

Coincidências com o ano de entrada no euro, apenas coincidências. Também apenas uma coincidência com o ano de perca de autonomia do nosso banco central, apenas coincidência, tal como tantas outras coincidências que irão continuar a ser apenas coincidências porque os nossos meios de comunicação serão incapazes de criar paralelismos entre a realidade de hoje e os efeitos das medidas assumidas desde 2001, porque tal poria em causa a linha condutora do discurso das elites cá do nosso burgo, as suas “verdades” pintadas à força.
Talvez por isso, o Zé Esquecido vá continuando pacificamente a encaixar pontapé atrás de pontapé na lógica da lógica perante uma ilógica que à força se torna lógica. Confuso, pois… tal como isto:

(…) o Estado vai ter que registar nas contas deste ano os 600 milhões de euros que se comprometeu a injectar no banco, antes de o vender ao BIC.
In Diário Económico

Mais 600 milhões retirados do estado social para pagar algo que de benefícios para a sociedade trás zero, ou algo muito próximo disso.
Ah! É agora que se levantam as vozes a dizer: “Mas se não fizéssemos isso os mercados deixariam de nos emprestar dinheiro e entraríamos numa falência violenta!”
Ah! Como uma mentira contada tantas vezes soa tão fortemente a verdade!
A Fitch subiu o rating da Islândia porque as medidas tomadas fizeram decrescer imensamente as probabilidades de quem agora lhe emprestar dinheiro não vir a receber o que lhe emprestou. Ao contrário dos países que se estão a auto-mutilar com medidas que destroem o sua independência económica e o seu tecido social. Quem quer emprestar dinheiro a um país que se auto-mutila a caminho do abismo e destroi o seu tecido social? Emprestam à Islândia ou a Portugal? Talvez à Grécia? A Espanha, Itália? Pois é…

E o que fazer contra este estado de coisas?
Pois…
Estando a elite a dominar e a controlar os meios de comunicação, as bancadas do bananal (parlamento), de mão dada com os casinos (bancos), a coisa não se afigura nada fácil para quebrar as barreiras da ignorância patenteada pelo Zé Esquecido.
Talvez tenha de dar razão a John Holloway, colunista no The Guardian, quando intitula um dos seus artigos desta forma “singela”: “Os gregos mostram-nos como protestar contra um sistema falhado”

A raiva demonstrada nas cidades gregas contra as medidas de austeridade inspira todos os que estão a sofrer em benefício dos bancos e dos ricos (…) Como podemos pedir às pessoas que aceitem docilmente os ferozes cortes na qualidade de vida que as medidas de austeridade implicam? Queremos que eles aceitem que o imenso potencial de tantos jovens seja pura e simplesmente eliminado, com os seus talentos enleados numa vida de desemprego de longo prazo? Tudo isso para que os bancos possam receber o seu dinheiro, os ricos ficarem ainda mais ricos? Tudo isso, apenas para manter um sistema capitalista que há muito passou a sua data de validade, que agora oferece ao mundo apenas destruição? (…) quanto tempo mais iremos ficar a assistir ao aumento das injustiças, a ver os sistemas de saúde serem desmantelados, a educação reduzida até a um nível acrítico, as águas do mundo sendo privatizadas, as comunidades destruídas e o planeta rasgado para o lucro das empresas de mineração? (…) Por todo o lado o dinheiro está a submeter toda a vida humana e não humana à sua lógica, à lógica do lucro. (…) Todos somos gregos. Somos todos sujeitos cuja subjectividade está pura e simplesmente a ser espalmada pelo rolo compressor de uma história determinada pelo movimento dos mercados financeiros. (…) A raiva pode facilmente transformar-se num evento nacionalista, numa raiva fascista; uma raiva que não faz nada para tornar o mundo melhor. Então é importante ser bem claro que a nossa raiva não é uma raiva direccionada aos alemães, nem mesmo uma raiva direccionada a Angela Merkel, ou a David Cameron, ou a Nicolas Sarkozy. Estes políticos são apenas símbolos arrogantes e patéticos do verdadeiro objecto da nossa raiva – o governo do dinheiro, a submissão de toda a vida à lógica do lucro. (…) Por detrás do espectáculo de bancos a arder na Grécia está uma processo mais profundo, um movimento mais silencioso de pessoas que se recusam a pagar os transportes públicos, as contas da electricidade, as portagens, as dívidas aos bancos; um movimento, nascido da necessidade e convicção, de pessoas que estão a organizar as suas vidas de forma diferente, criando comunidades de apoio mútuo e cadeias de bens alimentares, a ocupar edifícios abandonados e terras ao abandono, criando zonas agrícolas comunitárias, voltando para o campo, virando as suas costas aos políticos (que hoje em dia têm medo de aparecer na rua) e criando formas de democracia directa para tomar as decisões sociais. Talvez ainda não seja o suficiente, talvez ainda esteja em fase experimental, mas crucial. Por detrás das espectaculares chamas, é a procura por esta criação de uma forma diferente de vida que irá determinar o futuro da Grécia e de todo o mundo.
In The Guardian

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Posted on 18/02/2012, in Artigos, Banca, Corrupção, Economia. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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