Os Limites do Crescimento

Hoje vou começar pelo fim…

Desde o final da Segunda Guerra Mundial que o mundo tem vivido sobe a égide do crescimento, do PIB. Tem sido quase uma corrida contra o tempo a ver quem conseguia crescer mais e mais depressa – uma loucura. O crescimento passou a ser sinónimo, nas folhas de cálculo dos economistas e nas análises dos políticos, de felicidade e de bem-estar, de riqueza e de prosperidade. Era muito bom que tais cálculos ou análises se baseassem num mundo sem fronteiras, sem barreiras e ilimitado. Mas não o é. O mundo em que vivemos é esférico, tem barreiras, tem fronteiras e é limitado. Logo aqui são colocados em xeque os cálculos do necessário crescimento eterno para sustentar um sistema económico que não está desenhado para encontrar limites.
O crescimento que nós como sociedade temos vivido neste mundo desde a década de 1940 – em média aproximadamente 4,5% ao ano – foi um crescimento que assenta as suas bases numa fórmula matemática que foge ao entendimento da maioria do comum dos habitantes deste planeta; O crescimento exponencial.
Vou tentar explicar isso de forma o mais simplista possível.
– Uma taxa de crescimento de 4,5% em média por década significa que a cada 15 anos o mundo está a consumir aproximadamente o dobro daquilo que consumia há 15 anos de modo a conseguir alimentar esse crescimento – mais petróleo, mais carvão, mais matérias-primas, etc.
– Agora imagine que todos os recursos disponíveis no planeta equivaliam a 100.
– Imagine que na década de 1940 o consumo de recursos no planeta equivalia a 4.
– 15 anos depois, 1955, com o mundo a crescer 4,5%, o consumo de recursos no planeta equivalia a 8.
– Passados outros 15 anos, 1970, com o mundo a crescer 4,5%, o consumo de recursos no planeta equivalia a 16.
– Mais 15 anos, 1985… equivalia a 32.
– Mais 15 anos, 2000… equivalia a 64.
– Mais 15 anos, 2015… equivalia a 128.
(P.S: Uma explicação mais aprofundada do crescimento exponencial está no artigo O Petróleo, a Economia e os 7%)
Mas se este nosso mundo “imaginário” só tem 100 para servir de recursos, como então se adaptarão os cálculos e análises do crescimento, do PIB,  a um número que devia ser 128 para sustentar o tão necessário crescimento que serve de sustento a este sistema económico?
Pois é, pois é… as fronteiras, as barreiras e as limitações existem e estão sempre presentes no nosso mundo real.
Não poderá estar já actualmente o  nosso mundo a chocar de frente com as reais fronteiras, as barreiras e as limitações de um mundo que é esférico e não ilimitado?

Richard Heinberg:

A maré do crescimento económico que nos tem banhado desde a Segunda Guerra Mundial, poderá estar finalmente a perder força. Para os políticos e para a maioria dos economistas, é o mesmo que se dizer que o céu está a cair sobre as nossas cabeças. O crescimento tornou-se o guia e o Santo Graal, o sine qua non da existência económica. (…) o crescimento do PIB é impossível de sustentar a longo prazo, porque vivemos em um planeta com recursos naturais limitados. (…) No mundo “real” da política e da economia, questionar o crescimento é como questionar a gasolina numa corrida de fórmula 1. (…) À medida que as indústrias extractoras foram consumindo o produto que estava mais à mão no mundo do petróleo, carvão, gás natural e outros minerais, e se viraram para qualidades inferiores e, consequentemente para minérios e combustíveis mais dispendiosos, os gestores da economia tentaram preservar o crescimento acumulando dívida com a enganadora crença de que é apenas o dinheiro que faz a economia carburar, não a energia e as matérias-primas. (…) Com tanto os recursos energéticos como o crédito esticados ao limite, significa que poderá simplesmente não ser possível mais crescimento económico nos Estados Unidos e na Europa, independentemente da nossa opinião sobre o assunto. Se os políticos não reconhecerem isto e continuarem a assumir que a actual crise da dívida é apenas outro ciclo normal, então poderemos perder as oportunidades que ainda nos restam para tentar evitar um crash que poderá deixar a civilização de joelhos.
In The Guardian

Neste texto é-nos dito que a nossa sociedade já chocou de frente com os limites do planeta e que esses limites têm sido “escondidos” artificialmente nas contas do crescimento do mundo, no PIB, através da injecção de mais e mais dívida no sistema de forma a tentar encontrar um caminho para uma equação matemática que não levou em consideração limites aquando da sua criação, fórmula que serve de análise à felicidade ao bem-estar, à riqueza e à prosperidade… querem-nos fazer querer, nem que seja à força da mentira.
Qual está então a ser o caminho que os economistas e os bananas [políticos] estão a defender?
Abordar o problema central que afecta o sistema económico -barreiras ao crescimento, ou injectar mais dívida no sistema?

“O Banco do Canadá, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão, o Banco Central Europeu, o Federal Reserve americano e o Banco Nacional Suíço anunciaram hoje medidas coordenadas para ampliar sua capacidade de proporcionar liquidez ao sistema financeiro mundial”, anunciou o BCE.
In AFP

Pois é, pois é…
E então se lermos isto?

«Hoje, o Banco do Canadá, o Banco de Inglaterra, o Banco Central Europeu, a Reserva Federal, o Banco do Japão e o Banco Nacional da Suíça vêm anunciar uma medida coordenada que intenta aliviar as continuadas e elevadas pressões sobre o dólar americano nos mercados de financiamento.»
In Independet.ie

Não, não me enganei e coloquei uma repetição da mesma informação.
Ora, leiam:

Isto foi o que os bancos centrais fizeram ontem mas o testemunho acima foi feito a 18 de Setembro de 2008. Já aqui estivemos.
In Independet.ie

Pois é, pois é… deja vu.
A solução avançada esta semana como sendo a “solução” é nada mais nada menos a mesma “solução” que foi avançada como a “solução” final há três anos. Mesmo que esta “solução” funcione, quantos mais anos acham que ela irá ser solução?

«Desta forma, tal qual viciados, só estamos a comprar tempo. E sem a essencial terapia, só estamos a tornar o tratamento e a recuperação cada vez mais difícil»
In Der Spiegel

Pois é, pois é…
“Solução”? Terapia?
Mas analisemos então a qualidade da “solução” avançada pelos casinos centrais do nosso mundo.

A liquidez do mercado interbancário secou esta madrugada e os bancos tiveram de se socorrer dos empréstimos disponibilizados pelo BCE.
In Jornal de Negócios

Dois dias depois da grande “solução”, eis que o caso se torna ainda mais grave. Estas “soluções” diabólicas avançadas pelos mestres dos casinos com o apoio cego dos bananas e a anuência pela ignorância, ou pela preferência da irrealidade, dos Zé Esquecidos do mundo [povos], faz com que estas “soluções” só agravem o problema e não resolvam absolutamente nada de nada, bem pelo contrário. E quanto mais tempo os Zé Esquecidos continuarem cegamente esquecidos, o seu futuro irá continuar, dia-após-dia, a ser-lhes roubado em virtude de tal cegueira.

O Painel de Avaliação dos Auxílios Estatais da Comissão Europeia (CE) revelou, esta quinta-feira, que “o apoio nacional a favor do sector financeiro de que os bancos efectivamente beneficiaram no período compreendido entre Outubro de 2008 e 31 de Dezembro de 2010 ascendeu, no total, a cerca de 1,6 biliões de euros”, o que corresponde a 13% do PIB comunitário.
In Jornal de Negócios

Por acaso aqueles que ainda têm preferência em acreditar na irrealidade, ou os que desejam ardentemente continuar na ignorância, já pensaram que a crise dos periféricos e as medidas de austeridade adoptadas possam ser “apenas” fruto para dar frutos para alimentar os biliões de euros que estão a ser dados aos casinos que moram na Europa? Já sequer colocaram isso em questão?
Não?

O empenho foi tão grande que o Governo conseguiu transferir o fundo de pensões da banca mais do que uma vez. Transferiu-o uma vez e meia: uma para cá, meia para lá. (…) Não perca o fio à meada: seis mil milhões dos actuais pensionistas da banca estavam aplicados, “a render”, para pagar as pensões ao longo da sua velhice. Esse valor foi transferido para o Estado, em dinheiro vivo e em títulos de dívida pública. A dívida pública eventualmente consolidará (o Estado deve a si mesmo, logo abate a dívida pública); o dinheiro… será gasto. Entra por uma porta e sai pela outra. Voltando à casa da partida: ao banco.
In Jornal de Negócios

Provavelmente esta informação ainda não chegará para que os preferencialmente irrealistas desejem avançar um pouco mais no seu entendimento. Tal como em muitas coisas da nossa vida, há os que precisam primeiro que a casa lhes cai em cima para conseguirem entender que a sua estrutura tinha sido montada sobre mentiras.
E preparem-se, porque tal como em 2008, depois dos casinos centrais do mundo terem avançado para “salvar” o mundo, o mundo dos Zé Esquecidos poderá novamente vir a ser capitulado para salvar casinos que estão a ser “salvos” pelos casinos centrais do nosso mundo. Confuso? Pois é, pois é… é que os casinos centrais do mundo não salvam absolutamente nada, quem é chamado à salvação é o dinheiro dos contribuintes, dos Zé Esquecidos!
E para que tal afirmação não passe de forma ligeira:

Os bancos britânicos poderão vir a pedir mais dinheiro aos contribuintes.
In The Telegraph

Preparem-se que em breve voltaremos a ver o filme que já vimos há uns anos atrás, com as mesmas pieguices, choradeiras e clamores de fim do mundo. Aos que desejam continuar esquecidos e como parte adormecida do Zé Esquecido, desejo um bom assalto à vossa carteira e ao vosso futuro. O problema é que sendo poucos os que já acordaram para as mentiras, também eles terão de pagar pela cegueira amada dessa maioria surda do Zé Esquecido. Enfim, é característica da nossa espécie… a estupidez…

O défice de emprego global atingiu 64 milhões este ano, e serão necessários pelo menos quatro anos para regressar às taxas de emprego pré-crise de 2008, se o crescimento económico global continuar anémico, alertou hoje a ONU. (…) “Três anos depois do desencadear da Grande Recessão, a persistência do elevado desemprego continua a ser o calcanhar de Aquiles da recuperação económica na maioria dos países desenvolvidos”, refere o relatório.
In Destak

Calcanhar de Aquiles, o desemprego. “Soluções” avançadas em 2008 que levaram ao aumento do desemprego. Desemprego que está a conduzir a economia global para a recessão. “Solução” avançada em 2011 para resolver os problemas da economia mundial? A mesma aplicada em 2008 que piorou a situação em quase todos os vectores económicos. Pois é, pois é… daqui a três anos estaremos a falar do quê?
Pois é, pois é… austeridade…

A desigualdade aumenta quando os países usam os cortes nos gastos (…)
In Huffington Post

Vem aí mais austeridade para reduzir os efeitos da massiva injecção de dinheiro fiduciário (papel) no sistema e dessa forma controlar aquilo que poderá vir a ser inflação descontrolada pelo mundo fora. A austeridade está a servir de medida de controlo da inflação e não para controlo das despesas públicas dos estados, pois austeridade conduz ao aumento dos défices…

Como podem os países esperar superar a crise quando retiram dinheiro da economia através de mais impostos, quando mais dinheiro é retirado da economia através dos cortes nos gastos públicos e ainda quando mais dinheiro é retirado da economia pela redução dos salários e dos benefícios fiscais?
In Pravda

Pois é, pois é… E os que ainda acreditam na história da carochinha de que tais medidas são vitais para a sobrevivência do seu país, gostava de os relembrar do valor já colocado neste texto – a Europa até 2010 já DEU aos casinos que moram na nossa Europa 1,6 biliões de euros. A quem andam a tirar para poderem dar aos queridos amados meninos dos bananas? A quem?
Pois é, pois é…
E para os que preferem continuar a acreditar na irrealidade, ou para os que preferem continuar mergulhados na ignorância:

Contra factos não há argumentos e nem as agências de rating conseguem ignorar os efeitos positivos das decisões políticas. «A economia da Islândia está a recuperar das falhas sistemáticas dos seus três maiores bancos e voltou a um crescimento positivo depois de dois anos de contracção severa», disse esta semana a Standard & Poor’s, depois de ter subido o rating do país para BBB/A-3 (a Fitch mantém a Islândia com rating “lixo”). Das consecutivas decisões que o país foi tomando – e que continua a tomar – desde 2008 que não há vítimas a registar, a não ser os banqueiros e políticos que levaram à crise da dívida pública.
In Jornal I

Pois é, pois é… talvez também ainda não chegue para que quem deseja continuar agarrado com unhas e dentes à irrealidade consiga ver que nem sempre o que nos dizem ser a visão perfeita o é na realidade. E para aqueles que preferem nem saber, então fiquem a saber que a vossa desconexão e afastamento consciente ou inconsciente da realidade vos torna culpados por omissão da provável morte da vossa tão amada sociedade construida de ignorância.
Pois é, pois é… e voltando ao início que foi aqui anunciado como sendo o fim…

(…) a longo prazo irá indubitavelmente existir vida depois do crescimento, e não terá de significar que se desenrolará em condições piores. Com menos energia para alimentar a globalização e a mecanização, deverá acontecer um crescendo na procura da produção local e no trabalho manual. Poderemos conseguir suprir as necessidades básicas de todos dando prioridade ao trabalho na indústria transformadora e na agricultura, enquanto diminuímos as indústrias financeira e militar. Também teremos de reduzir as desigualdades económicas e a corrupção (…) Enquanto fazemos essas coisas, teremos de reformar a economia para reflectir a realidade ecológica: a Natureza, ao fim ao cabo, não é apenas um monte de matérias-primas à espera de serem transformadas em produtos e depois em desperdício; bem pelo contrário, a integridade dos ecossistemas é uma pré-condição para a sobrevivência da sociedade. (…) Existe luz ao fim do túnel. Se nos focarmos a melhorar a qualidade de vida em vez de aumentarmos a quantidade daquilo que consumimos, poderemos vir a ser mais felizes mesmo que a nossa economia regrida até se estabilizar dentro dos limites da Natureza. Mas é improvável que transpire um futuro benigno se todos continuarmos a viver num mundo de faz-de-conta onde o crescimento não conhece limites, onde a dívida pode ser paga com mais dívida e onde se assume que os recursos naturais são eternos. Os alarmes estão a soar. Acordem para a economia do pós-crescimento.
In The Guardian

Conclusão:
O crescimento cresce de ar feito de nada… de dinheiro que é dado a uns retirando a quem menos tem… num mundo de cegos conscientes e de conscientes na ignorância… consciência de nada que não conduz a nada de bom… entre mártires da cegueira e cegos na destruição… o mundo avança imparavelmente para um momento de decisão…
Ou abrimos os olhos ou então deixaremos de ver… futuro.

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Em busca de mais conhecimento

Posted on 02/12/2011, in Agricultura, Ambiente, Artigos, Banca, Corrupção, Economia, Energias. Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. piradodamona

    Concordo inteiramente consigo. A grande maioria das pessoas anda preocupada com o que não deve. Colocou-se o crescimento económico no centro de tudo, quando o que ali se devia colocar era… o Homem!

    • piradodamona, vou um pouco mais longe.
      O crescimento económico está no centro de tudo quando ali devia estar a simbiose entre Homem e o planeta Terra.
      A maioria das pessoas já não sabe qual é o verdadeiro significado de bem-estar. Foram confundidas com a noção de mais bens materiais representar bem-estar e felicidade. Com isso perderam grande parte do verdadeiro sentido da vida, vivendo cegamente para ter mais e muito pouco para realmente viver.
      Esta cegueira colectiva está a ajudar a perpetuar algo que está conceptualmente errado; o sistema económico vigente. É essa cegueira, acima de tudo, que está a colocar os mais acérrimos entraves à resolução dos problemas que a sociedade humana enfrenta actualmente. Podemos apontar os políticos (bananas), os banqueiros (casineiros), os super-ricos como sendo os principais culpados das dores que enfrentamos, mas isso é apenas uma forma de fugir das nossas responsabilidades colectivas, apontando o dedo a quem está mais à mão. A solução terá de partir\nascer da sociedade, e enquanto ela for sinónimo de alheamento mental as soluções que lhe irão sendo servidas irão servir apenas aqueles que melhor se alimentam deste sistema montado em erro; os casineiros, os bananas e os super-ricos…

      minhamosca

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