Um Sonho Que é Realidade

O milagre das Maurícias, ou como ser bem sucedido com uma pequena economia.

Cada vez mais está na ordem do dia palavras tais como: “temos de mudar este paradigma social“, ou “este sistema económico é inimigo do Zé Povinho“. Mesmo pessoalmente concordando com tais visualizações do estado das coisas, não consigo na sua essência concordar porque são convicções que na grande maioria dos casos não levam em consideração que o mundo não é nem só preto, nem apenas branco.
Se as afirmações acima descritas fossem verdadeiramente correctas e exactas na sua análise, então não existiriam excepções a uma regra que infelizmente se tornou parte vigente e activa na grande maioria dos casos e dos países. O exemplo das Ilhas Maurícias, e a sua economia, é um exemplo que choca violentamente com a regra vigente na esmagadora maioria das economias mundiais.

Para nos explicar isso, talvez não houvesse melhor interlocutor que Joseph Stiglitz, prémio Nobel da economia e um defensor das teorias keynesianas que dominam a economia do nosso dia-a-dia, e por inerência do nosso paradigma social e do nosso sistema económico.

Suponham que alguém vos descrevia um pequeno país que providenciava educação universitária gratuita para todos os seus cidadãos, transportes gratuitos para as crianças em idade escolar e um sistema de saúde sem custos para todos os seus habitantes – incluindo as cirurgias ao coração. Talvez suspeitassem que esse país fosse fenomenalmente rico ou que então caminhava na direcção de uma crise com as suas finanças.
Mas as Maurícias, uma pequena nação dispersa por várias ilhas, na costa Este de África, não é particularmente rica nem está a caminhar para a ruína orçamental. Apesar de tudo, passou as últimas décadas a desenvolver com sucesso uma economia diversificada, um sistema político democrático e uma forte rede de apoios sociais. Muitos países, em especial os Estados Unidos, podiam aprender com a sua experiência.
In The Guardian

Andamos quase todos os dias a ser bombardeados com os (falsos) factos de que o Estado Social é insustentável, que as propinas para a educação são baixas e que têm de aumentadas, que as bolsas têm de ser distribuídas de forma regrada, que a Saúde é um enorme fardo para as contas do Estado, que os transportes públicos têm de ser pagos pelo utente e depois damos de caras com uma minúscula economia que consegue fazer isso tudo sem colocar em causa as contas do seu orçamento.
Sabem uma coisa… BALELAS! Balelas servidas para remexer com a mente do Zé Povinho, é que isso é!

E como é tal possível nas Maurícias se por cá, pela Europa, pelo mundo (chamado) desenvolvido, isso é um drama em forma de trama interminável?

O PIB das Maurícias tem crescido acima de 5% ao ano desde há quase 30 anos. Certamente que isto só pode ser um “truque”. As Maurícias devem ser ricas em diamantes, em petróleo, ou em outro bem comercial valioso. Mas as Maurícias não têm recursos naturais exploráveis. Na realidade, as suas perspectivas eram tão diminutas, depois de ter conquistado a independência da Grã-Bretanha, em 1968, que James Meade, economista laureado com o prémio Nobel, escreveu em 1961: “será um grande feito se [o país] conseguir desenvolver empregos produtivos para a sua população sem que tal não conduza a uma demarcada redução do seu nível de vida.”
Meade estava enganado, os mauricios viram aumentar o seu rendimento per capita de menos de 400 dólares à época da independência, até mais de 6.700 dólares nos dias de hoje. O país passou de uma economia baseada na monocultura de cana de açúcar para uma economia diversificada que inclui o turismo, finanças, têxteis,e, se os actuais planos forem bem sucedidos, tecnologia de ponta.
In The Guardian

30 anos de crescimento médio acima de 5%?????E não é um sonho, nem uma balela????

O que poderá por lá ter acontecido para que aquilo que a maioria do mundo pensa ser apenas um sonho se transformasse numa realidade?
Se as Maurícias são incomparavelmente menos ricas que os países desenvolvidos e se por lá isso foi exequível, o que falta cá deste lado para que tal seja possível?
Como organizar a sociedade para que isto não seja apenas um sonho?
O que fizeram de diferente?!?!?!

Os mauricios escolheram um caminho que conduz a níveis de coesão social, bem estar e crescimento económico mais elevados – e a um menor nível de desigualdades.
Depois, as Maurícias decidiram que quase todos os gastos militares eram um desperdício.(…)
Terceiro, as Maurícias reconheceram que não tendo recursos naturais, os seus habitantes eram o seu único bem. Talvez tenha sido essa apreciação dos seus recursos humanos que levou as Maurícias a compreender (…) que a educação para todos era crucial para a unidade social.
In The Guardian

Já repararam que todos os caminhos que as Maurícias optaram por tomar são quase totalmente contrários àqueles que estão actualmente a ser tomados pelos países (chamados) desenvolvidos?
Gastos com instituições militares que servem para nos defender de inimigos que ainda estão por chegar, desinvestimento na educação e uma educação para cada vez menos, e uma crescente e cada vez mais perversa desigualdade social.

Já por acaso pensaram que o problema não está neste paradigma social, não está neste sistema económico, e possa estar sim no caminho que este paradigma e sistema económico estão a trilhar?
De que nos valerão as revoluções da “geração à rasca” se, a meu ver, a esmagadora maioria das pessoas que irão participar não fazem quase “puto” ideia do que está realmente incorrecto com o seu mundo?
Não é mudando as caras que dão cara às políticas que se mudam mentalidades, é sim mudando a mentalidade do Zé Povinho que se irá fazer mudar a cara e lógica das políticas, mas para isso é preciso saber mais, e ter conhecimento de mais que apenas “os bananas do partido amarelo são piores que os bananas do partido roxo”, ou a culpa é toda dos bananas! É imperativo reconhecer efectivamente qual o caminho a ser tomado!

Podia por aqui ter juntado inúmeras notícias do nosso mundo para contrapor com a realidade das Maurícias, mas acho que isso seria estar a dar-lhes importância e a retirar o valor quase incalculável que a história de vida das Ilhas Maurícias nos tem para ensinar.

Conclusão:
Um sonho que é em parte uma realidade…

Notícia do The Guardian – The Mauritius miracle, or how to make a big success of a small economy

About minhamosca

Em busca de mais conhecimento

Posted on 10/03/2011, in Artigos, Economia and tagged , , . Bookmark the permalink. 3 comentários.

  1. CropedFrag

    Gostaria de salientar este post com uma nova entrada recente, que também foi colocada aqui neste blog. E que tem semelhanças com o assunto discutido:

    http://www.ionline.pt/conteudo/113267-islandia-o-povo-e-quem-mais-ordena-e-ja-tirou-o-pais-da-recessao

    (bolas, ando atrasado na leitura :P)

  2. Sem tirar o mérito que tem o artigo, penso que ele sairia mais enriquecido se viesse acompanhado com as contas sobre os custos da Saúde Pública (por exemplo) dividido depois pelo numero anual de utentes. Em função disso, conheceríamos, em termos absolutos e gerais (e diria quase abstractos), qual o preço médio que o utente teria que pagar para ela ser sustentável. Depois compararíamos os resultados com a Maurícia e, se for caso disso, “aprender com a sua experiência”. Dizer que são “balelas” pode não ser suficiente uma vez que, a ser verdadeira, a história da Maurícia pode ter mais água no bico do que aquilo que nos contam ou nos é contado. Pequeno à parte: continuo a seguir o teu trabalho. Portanto continua. Cuidado é com os erros!🙂

    • Boas Grande Hephem.

      A mOsca é para ser “simples” e um ponto de partida para quem desejar saber mais. Tenta ser um meio termo entre a realidade, por vezes forçada, que nos é dada a conhecer pelos meios de comunicação generalistas e a realidade que os mesmos meios de comunicação generalistas quase nos escondem.
      Os números que falas estarem em falta são muito bem vindos como complemento aqui nesta mesma área do artigo. Gostava de poder fazer isso com todas as notícias e com todos os artigos que por cá coloco, mas isso é virtualmente impossível, pois ou destacava apenas uma infíma parte do nosso mundo, ou então, como estou a fazer, destaco o máximo possível deixando para vós que por aqui passam o desenvolver por vós dos pontos de partidada que por cá vou deixando.
      As Maurícias são um paraíso fiscal, são um sorvedouro dos dinheiros dos podres deste sistema – a água no bico – mas a meu ver não é esse ponto o importante a salientar pois nós por cá em Portugal temos também um paraíso fiscal – Madeira – e é na Madeira que encontramos as maiores desigualdades sociais no teritório nacional. O que a situação nas Maurícias coloca, a meu ver, em questão, não é os podres deste sistema económico, sim as direcções que se podem tomar dentro deste sistema económico, coloca em causa as teorias keynesianas e salienta uma linha económica que está quase em vias de extinção neste sistema, as teorias de Friedrich Hayek.
      Para ajudar a compreender isso de forma acessível, uns vídeos em formato de brincadeira🙂

      Erros ortográficos🙂
      Preciso de um corrector humano🙂

      Um abraço,

      minhamosca

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