Um Faz de Conta…

Médio Oriente é o espelho de revoluções por inflação desde 1200 DC. A América do Sul aprecia um “boom” na classificação de crédito… por ora. Bancos Centrais sul americanos vêem agravamento do risco económico. A economia brasileira vacila com o aumento dos preços. É dito que a Argentina está a ameaçar os economistas que questionam os dados. Colômbia aumenta inesperadamente a taxa de juro para controlar a inflação. Beijing irá crescer menos. Economia dos Estados Unidos cresce apenas 2,8%.

Os motores do mundo desde 2007, as economias dos mercados emergentes, principalmente as dos BRIC, estão a começar a sentir os solavancos de uma economia mundial excepcionalmente dependente da liquidez de dólares e do preço do petróleo.
Se os mercados emergentes começarem a reduzir o passo do seu crescimento (PIB) o mundo irá, muito provavelmente, começar a contrair num todo.

Já por aqui fui escrevendo sobre as economias asiáticas, sobre os Estados unidos, sobre a Europa, sobre o Médio Oriente, mas estava em falta falar das economias sul americanas e principalmente da economia brasileira.

Antes de mais, vou tentar contextualizar com a História aquilo que o mundo está a enfrentar hoje em dia, pois desengane-se quem pensar que estamos a lidar com um caso sem paralelo:

Desde a Idade Média que a inflação conduziu a revoluções politicas e podemos estar na presença da quinta revolução do género.(…)
A primeira vaga de alterações nos preços aconteceu durante a Idade Média, culminando com a peste negra. As outras três ocorreram no séc. XVI, no séc. XVIII e no virar do século passado. Cada uma dessas ondas inflacionárias durou aproximadamente 100 anos, de acordo com o trabalho de Fischer.
“Durante as últimas quatro revoluções nos preços, os alimentos e a energia lideraram o movimento de crescimento, seguidos de perto pelo aumento dos bens manufacturados e dos serviços,” escreve Yardeni, um reconhecido estratega de Wall Street que já fez parte da Reserva Federal americana e do Tesouro. “A relevância da história das anteriores vagas inflacionárias é simplesmente assustadora.”
In CNBC

Portanto, os homens que actualmente andam a brincar à inflação têm plena consciência dos danos que tal acção pode causar no nosso mundo, pois sabem o que aconteceu na História. Podemos então afirmar que andam a brincar com o fogo e que quem brinca com o fogo costuma queimar-se a si e a todos os outros…

Então que história é essa que a História nos conta?

(…) descreve o inicio das vagas com o aumento da inflação, seguida depois com os governos a imprimir moeda. Em resposta, começa a surgir um acnetuado aumento no preço dos bens, gerando um cavar das desigualdades entre rendimentos porque a elite resiste ao aumento de impostos. Os desprezados, especialmente os da geração mais jovem, ficam desesperados e irados e começam a mobilizar-se em grupos para estimular revoluções politicas. A vaga termina numa tremenda volatilidade financeira e no fim em um colapso dos preços e das taxas de juro.
In CNBC

Relembro que esta é uma análise do passado e não uma dos dias de hoje… mas é incrível a semelhança entre o que ontem o mundo enfrentou e o que hoje o mundo enfrenta e está a enfrentar..
Irá desta vez ser diferente?
Terão os Homens aprendido com os erros do passado?

Entrando agora na América do Sul, que servirá neste texto como exemplo para tentar responder às questões que salientei acima…

A América do Sul está a beneficiar de um “boom” na avaliação ao seu crédito, não obstante um declínio constante das credenciais financeiras nos bancos do Médio Oriente, mas existem sinais que isso poderá ser uma bolha que pode estoirar sem aviso.
Na semana passada o Brasil recebeu avisos de que o seu inflado mercado de crédito comporta riscos que podem arrastar a sua exuberante economia, depois de repetidos alertas de que as moedas sobreaquecidas de vários países emergentes, incluindo as do Brasil e do Chile, poderem minar o crescimento dos seus PIBs que são impulsionados pelas exportações.
In UPI

A verdade é esta… estes países estão quase totalmente dependentes das exportações para crescer e sofrem mais violentamente e directamente as agruras do aumento da inflação quando em crescimento, pois para se manterem competitivas as suas moedas têm usualmente de depreciar. Ao invés, caso o mundo no seu todo comece a entrar em contracção as suas exportações entram em declínio e com elas as suas economias, sobrando apenas altas taxas de inflação e depressão, aquilo que é o mais temido no mundo financeiro: a estagflação – contracção económica acompanhada de inflação.

Alguns poderão afirma que tal cenário de stagflação é verdadeiramente descabido perante a exuberância demonstrada por estas economias, mas atenção que:

Os principais bancos centrais da América do Sul concordaram na sexta-feira que a sua tarefa se tornou mais complexa diante de maiores pressões inflacionárias causadas pela alta dos alimentos e do petróleo.
Além disso, as entidades indicaram que os riscos de uma desaceleração mundial aumentaram devido à tensão no Oriente Médio e norte da África.
In Reuters

Portanto, não é de todo algo descabido, muito antes pelo contrário…

Mas existem outros problemas subjacentes ao crescimento desmedido e descontrolado que estas economias têm gerado.

O Brasil é um excelente exemplo de como décadas de fraco crescimento económico deixaram o país mal preparado para as exigências do crescimento que está actualmente a gerar .
Desde interrupções na distribuição de energia, a estradas incapazes, à falta de mão-de-obra qualificada, pontos de estrangulamento na economia que estão a fazer aumentar os custos de produção e de distribuição e a limitar o fornecimento de bens e serviços a um mercado devorador. As limitações, não obstante o constante crescimento, colocam em causa a capacidade do Brasil progredir em direcção a uma prosperidade sustentável a longo termo.
In Wall Street Journal

Portanto, o Brasil, assim como a maioria das economias emergentes, são (quase) apenas verdadeiras estruturas remendadas com pouca sustentabilidade e geradores de cada vez maiores discrepâncias de rendimentos entre classes. Como vimos atrás, a História conta-nos que isso foi o rastilho que impulsionou as sublevações sociais, assim como o presente nos está a apresentar os mesmos condimentos em acção no Médio Oriente.
O Brasil e as restantes economias emergentes têm de esperar que o mundo continue a crescer ao ritmo que lhes tem providenciado o seu crescimento económico, porque não têm mercado interno suficiente para manter uma sustentabilidade mínima das suas economias. A sua dependência das exportações é tal que um soluço da economia mundial poderá deixar várias destas economias emergentes em profundo estado de coma social.

Acho que alguns destes mercados emergentes já começaram a tentar controlar o eminente estado de coma… ora vejamos:

O governo argentino está aparentemente a entalhar a pressão gerada pelos economistas do sector privado que questionam a fiabilidade dos seus dados sobre a inflação.
O responsável de uma firma de consultadoria financeira afirmou esta sexta-feira ter recebido telefonemas em tom de ameaça de modo a tentar prevenir que tecesse comentários sobre a inflação.
De acordo com o Indec, os preços ao consumidor subiram 10,6% em Janeiro. Mas economistas dizem que a verdadeira taxa de inflação está próxima dos 25%, ou mais, e que os preços poderão subir ainda mais rápido este ano.
“Nem o governo militar chegou a tal ponto,” afirmou Ferreres. (…)
In Nasdaq

A História conta-nos também que o status quo instituído faz de tudo para manter a coesão social que lhes dá guarida ao poder, seja na Argentina, no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal, ou na cochinchina…
Estará a América do Sul, a América, a Europa, o mundo nas mãos do mesmo tipo de cambalachos nos números?
Acho que basta ir lendo as notícias do dia para terem direito a uma resposta concisa em relação a isso… SIM!

Talvez por isso seja quase sempre uma surpresa para os (pseudo) analistas internacionais quando um país aumenta as taxas de juro nos seus bancos centrais. Desta vez foi na Colômbia:

Os responsáveis colombianos subiram hoje inesperadamente a sua taxa de referência, pela primeira vez em dez encontros, para tentar acalmar a crescente demanda interna.
In Bloomberg

Isto só é uma surpresa porque os números não batem certo, porque a baterem nunca existe surpresa que conduza à tomada de tal medida que coloca em causa o crescimento económico, e como todos (?) já devem estar a par, as últimas medidas que as economias desejam tomar são as que colocam travão ao crescimento.
Daqui só há uma questão a retirar: A inflação está descontrolada!

Portanto, estes mercados emergentes que têm sido a âncora, nos últimos anos, do crescimento do mundo estão a braços com taxas de inflação quase inacreditáveis, com défices estruturais monumentais e com uma cada vez mais que provável manipulação dos dados que servem de sustento à sua realidade… tudo bons indicadores…

Falta juntar a isto mais um indicador, a China e os Estados Unidos:

O Primeiro Ministro Wen Jiabao afirmou que o objectivo oficial para o crescimento nos próximos 5 anos será revisto em baixa de 7,5% para 7%.
In The Wall Street Journal

A economia dos EUA cresceu 2,8% no quarto trimestre de 2010, face ao homólogo, e não os 3,2% anteriormente estimados, revelou esta sexta-feira o Departamento do Comércio norte-americano.
In Agência Económica

Por fim… os dois principais mercados mundiais que absorvem as exportações dos países emergentes estão em contracção no seu crescimento. A dependência dos mercados emergentes destes dois motores da economia mundial é tal que contracções marginais das suas taxas de crescimento poderão conduzir a pequenas catástrofes nas economias dos emergentes. E como o motor principal das grandes economias do nosso mundo, o petróleo, não dá sinais de querer parar de subir de preço, o que iremos inevitavelmente assistir será a uma contracção no crescimento dos seus PIBs que poderá conduzir a uma nova recessão no mundo.
Tenho poucas dúvidas ao afirmar que um mundo em recessão será desta vez muito mais violento para as economias emergentes, que escaparam do solavanco de 2008, do que para o restante deste mesmo mundo. As suas economias cresceram desmedidamente nestes últimos anos, impulsionadas por um aumento exponencial da procura de matéria-prima e excesso de investimento\liquidez nos seus mercados, e como estruturalmente são economias seguras quase apenas por arames poderão vir por aí abaixo tal como o que estamos a presenciar hoje em dia no Médio Oriente…

Conclusão:
A História está cheia de histórias de quem não olha para o passado e por ele acaba por ser sorvido… e os que hoje emergem nesta História fazem-no mergulhados num rio de liquidez de riqueza ilusória, de papel… papel que no papel mostra que são apenas meros agrafos o que os segura a essa ilusão… e do mesmo papel é rasurada a verdade da verdade, sobrando pouco mais que mentira descrita em linhas de um faz de conta… e alguns continuam a fazer de conta que é sempre uma surpresa a surpresa de serem surpreendidos com linhas que nunca bateram com as contas, um faz de conta…
Por isso e para quem hoje emerge, talvez seja melhor continuar a fazer de conta que as suas contas são feitas de futuro… e sem agrafos…

Notícia da CNBC – Middle East Mirrors Great Inflation Revolutions Since 1200 AD
Notícia do UPI – S. America enjoys credit ratings boom — for now
Notícia da Reuters – BCs da América do Sul veem agravamento do risco econômico
Notícia do The Wall Street Journal – Brazil Economy Flickers as Bottlenecks Drive Up Prices
Notícia do Nasdaq – Argentina Said To Be Threatening Economists Who Question Data
Notícia da Bloomberg – Colombia Unexpectedly Raises Rate to Tackle Inflation
Notícia do The Wall Street Journal – Beijing to Slow Growth
Notícia da Agência Financeira – Economia dos EUA só cresce 2,8%

About minhamosca

Em busca de mais conhecimento

Posted on 28/02/2011, in Artigos, Corrupção, Economia and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: