Os Telhados de Vidro

Espanha coloca apenas 3,5 mil milhões de euros, 500 milhões abaixo da oferta. BCE já terá comprado 18 mil milhões de dívida portuguesa. O reembolso da dívida pública está garantido? Economia já recebeu 63 mil milhões para sobreviver. Empréstimos do BCE à banca sobem para máximos de 20 meses. Antigos quadros do Santander colocam a nu esquema para fugir aos impostos. Como a classe média passou a ser a classe inferior.

Estará o telhado de vidro a começar a rachar?
Hoje a Espanha não conseguiu vender toda a dívida que disponibilizou no mercado. Tentou vender 4 mil milhões e  conseguiu apenas angariar compradores para 3,5 mil milhões…
Hoje pode ter sido o dia de misericórdia para Portugal pois com os investidores a fugir da dívida espanhola é quase inevitável que irão fugir a sete pés da dívida soberana portuguesa. Talvez a China nos salve(?)… quer dizer, Macau. Talvez o BCE continue a não recear o aumento da inflação e venha em nosso socorro(?)… talvez… talvez o nosso telhado seja de vidro resistente… talvez…

Mas o mesmo BCE, que hoje não conseguiu cobrir toda a oferta colocada pela Espanha no mercado, que segundo o Société Générale, já comprou, desde Maio de 2010, 18 mil milhões de dívida portuguesa, aproximadamente 15% do valor total.
Estará o BCE então em condições de continuar a financiar\comprar a nossa economia?
Acho que hoje tivemos direito a parte da resposta a essa questão: Não!
Para além disso, convém fazer uma continha de somar para se entender um pouco melhor a profundidade da questão central:
Qual o total da dívida soberana portuguesa?
Temos de ser nós a fazer essa continha porque ela continua quase a ser o segredo número 1 do Estado…
Então, se o BCE comprou 18 mil milhões que correspondem a 15% do total… 100% será equivalente a aproximadamente 120 mil milhões de euros de dívida acumulada! 120 mil milhões!!!!
Convém salientar que este valor em dívida contempla apenas a dívida directa do Estado português, não engloba as dívidas, chamadas indirectas, das empresas do Estado, as dívidas do BCP, nem as dívidas das entidades privadas nacionais. Digamos que este valor poderá representar apenas 1\3 de toda a dívida acumulada pela economia portuguesa — não, não estou a esticar a corda para o negativo!

Hoje o diário económico ajudou-nos a entender, mesmo que ele próprio, Diário Económico, mal perceba o que realmente escreveu, um pouco melhor o porquê do Estado português continuar a endividar-se, ora vejamos:

O Estado vendeu ontem mais mil milhões de euros de dívida, elevando os valores colocados este ano para 9,16 mil milhões de euros, mais 12% que em igual período do ano passado. O montante de dívida colocado desde Janeiro é similar aos 9,25 mil milhões de euros que o Estado terá de devolver aos credores em Abril e Junho referentes a obrigações que atingem a sua maturidade.
In Diário Económico

Portanto, analisando de forma simplista, tal e qual como está representado nesta notícia, Portugal endividou-se em mês e meio em 9,16 mil milhões de euros que servirão para pagar 9,35 mil milhões em dívida, em Junho(?).
Portanto, Portugal contraiu dívida apenas para pagar dívida já existente!
Esta é a verdadeira história deste sistema de dívida de crescimento imparável… o motor deste sistema económico… dívida que gera (pseudo)riqueza e (pseudo)crescimento económico.
Mas esta notícia está enviesada de erros por omissão.
Primeiro, esse valor não irá cobrir a dívida que irá saldar em Julho pela simples razão que grande parte dele está e irá servir para cobrir o défice mensal das contas públicas, algo aproximado a 3 mil milhões até Julho. Portanto ficam a sobrar (apenas) 6 mil milhões para amortizar a dívida relatada.
Segundo, até Julho o Estado terá ainda de saldar os juros que vencem em Fevereiro, Março, Abril e Maio… digamos, mais 500 milhões. Portanto sobrarão(?) 5,5 mil milhões de euros para pagar 9,25 mil milhões.
Portanto, o Estado terá muito provavelmente de vender mais dívida num valor aproximado de 4 mil milhões de euros de forma a cobrir a dívida que terá de ser saldada em Julho.
Crescimento exponencial da dívida! Não para! É sempre mais! E se for reduzido a economia deixa de crescer… é este o paradigma deste sistema económico dependente da dívida.

Hoje também, o Jornal I, que vai sendo o meio de informação para as massas que ultimamente mais profundamente tem abordado as questões, dá-nos acesso à verdadeira profundidade desta situação, das ajudas do BCE e da economia portuguesa:

Portugal está transformado num filho que, ao mesmo tempo que exige independência e autonomia para decidir os seus assuntos, não abdica da mesada. (…)
Considerando todos os apoios extraordinários que o Banco Central Europeu (BCE) pôs em marcha para Portugal desde Maio de 2010 – quando estalou a crise da dívida -, e juntando a estes valores as jogadas contabilísticas e as receitas não recorrentes que Teixeira dos Santos vai descobrindo, vamos já em mais de 63 mil milhões de apoio artificial ao tecido económico português. Se às ajudas internacionais juntássemos ainda as “ajudas” internas – por exemplo, os aumentos de impostos, que em 2010 permitiram que o Estado recolhesse mais 2,3 mil milhões do que em 2009 -, este número seria bem maior. “Nós, neste momento, já temos ajuda externa do BCE e do Eurossistema. É um facto perfeitamente óbvio”, observou Teodora Cardoso, economista do Banco de Portugal, a 31 de Janeiro.
(…)Mas o BCE já avisou: a torneira está a fechar.
In Jornal I

63 mil milhões de euros de ajudas directas à economia… 63 mil milhões de euros de nova DÍVIDA desde Maio do ano passado, em menos de um ano!
6 mil milhões por mês de défice a juntar aos milhares de milhões que já estavam em dívida!
Terá Portugal, muito em breve, de estar a conseguir angariar 12 mil milhões por mês para cobrir dívida que terá de pagar nesse mês?
Talvez… talvez muito provavelmente…

E juntemos estes números dos empréstimos do BCE às economias europeias, aos concedidos à banca europeia:

Dados divulgados hoje mostram que os empréstimos de muito curta maturidade (24 horas) concedidos pelo BCE aos bancos da zona euro ascenderam hoje a 15 mil milhões de euros.
In Diário Económico

15 mil milhões de euros, em apenas 24 horas, em empréstimos à banca?!?!?!?! De curta maturidade, 24 horas?!?!?!?!
Isto cheira mesmo a jogadas altas no casino do desespero económico! Talvez… talvez seja apenas uma leitura incorrecta da minha parte… talvez… ou talvez não…
Mas isto dá direito a uma pergunta:
Mas a banca não anda por todo o lado a revelar lucros estrondosos?
Os cinco maiores bancos portugueses não lucraram em conjunto 1.724,3 milhões de euros no ano passado?
Só como exemplo mais recente… os lucros doo Barclays não foram de 4,23 mil milhões de euros no ano passado?
Quais as razões subjacentes aos empréstimos à banca por parte do BCE no valor de 15 mil milhões em apenas 24 horas?
O que se passa?
Será o lucro contabilístico da banca apenas isso, contabilístico?
Algo se virá a saber em breve em relação a estas questões… talvez…

E enquanto tentamos analisar o quase incompreensível, eis que hoje sai bomba nos meios de comunicação generalistas portugueses: Ex-quadros do Santander põem a nu esquema para reduzir factura fiscal!
Bomba!! Quer dizer… já não era sem tempo que alguém tivesse a decência de começar a colocar a nu as jogatanas dos casineiros, que têm constantemente o aval do silencio dos bananas, que colocam em causa a democracia transformando-a numa verdadeira demo-cracia.

Jorge Dias explica em declarações ao PÚBLICO que aqueles fundos eram investidos em condições anormais, e que nunca passou as declarações fiscais dos rendimentos dessas aplicações, porque a administração do banco, que geria os activos, apesar dos múltiplos pedidos, nunca o informou sobre quem eram os beneficiários económicos últimos. (…)
A documentação existente indica que os 350 milhões de dólares, Ptif (150 milhões de dólares) e Taf (200 milhões), foram colocados no início da década passada pela administração de Horta Osório numa conta da sucursal do Luxemburgo, onde a taxa de IRC é reduzida, e que a sua movimentação foi feita como se pertencesse a um cliente normal. Nos anos seguintes, a verba seria triangulada entre praças financeiras, respeitando as datas de vencimento dos pagamentos acordados com os titulares das duas sociedades. A casa-mãe emprestava os 350 milhões de dólares à sucursal luxemburguesa, a uma determinada taxa de juro, e, esta, por sua vez, aplicava-os junto da sede (tipo depósito a prazo), através da sala de mercados de Lisboa, à mesma taxa, acrescida de um spread (que dava à sucursal a margem de lucro e à sede um custo adicional). Depois, a sucursal do grão-ducado transferiria os juros vencidos para a de Londres, que por sua vez os encaminhava para a conta as Caimão [onde não há tributação de lucros]. (…)
Em síntese: o Santander Totta aumentava os custos em Portugal, pois as taxas de juro estavam desajustadas face ao mercado, e obtinha proveitos mais elevados nas ilhas Caimão, livres de taxas.
In Público

Estaremos cá para ver se os bananas e a justiça(?) irão mover alguma coisa para tentar sanar estas jogatanas com cartas fora do baralho da justiça social…
Pessoalmente estou cansado que os mesmos que tiveram de ser salvos, mesmo quando continuavam a ter lucros monumentais, que têm mais benefícios fiscais que qualquer outra entidade colectiva ou singular no país, que pagam menos impostos, muitíssimo menos, que qualquer outra entidade colectiva ou singular em Portugal, possam ainda continuar de forma despudorada a infringir quase todas as regras do jogo que eles jogam, lesando o Estado e principalmente o Zé povinho!
Já chega!!!!!
Já chega de tanta trampa junta!!!!!!

E isto tudo talvez nos ajuda a entender melhor o porquê desta democracia já estar totalmente desvirtuada numa demo-cracia, e compreender que o principal sinal que é face da realidade dessa afirmação é o fosso social que está a ser cavado entre aquilo que já foi outrora uma classe média vibrante e aquilo que hoje é uma classe rica desproporcionadamente mais rica que nunca.

Os rendimentos de 90% dos americanos ficaram “pregados” em neutro, e não é apenas devido à recente recessão. Os rendimentos da classe média estão estagnados há pelo menos uma geração, enquanto os da ala dos mais ricos cresceu à velocidade da luz.
Em 1988, o rendimento médio de um contribuinte americano era de 33.400 dólares, ajustados pela inflação. Avancemos 20 anos, e muito pouco mudou: o rendimento médio ainda era de 33,000 dólares em 2008, de acordo com os dados do IRS.
Entretanto, o 1% dos americanos, que representam os mais ricos, – os que ganham acima de 380.000 dólares ou mais – viram os seus rendimentos crescer 33% nos últimos 20 anos, deixando os americanos da classe média a comer o seu pó.
In CNN

Esta é a verdade do nosso mundo… mundo a ser conduzido e feito cada vez mais à medida de 1% da população em que os restantes 99% têm de trabalhar cada vez mais apenas para conseguirem ficar onde estão. Onde antigamente bastava o ordenado de um dos agregados familiares, agora são necessários dois e por vezes nem tal chega.
De que vale ao Zé Povinho refilar que a vida está má se não consegue perceber que não está má para todos, se não consegue entender que está muito melhor, e cada vez mais, para 1% da população?
É por aqui que os problemas devem ser combatidos… digo eu…

Conclusão:
Atenção! Atenção! O telhado de vidro dos espanhóis está a cair… Atenção! Atenção! O nosso telhado de vidro também vai partir… e atenção que o BCE, Banca Central dos Endividados, está mais endividado do que os em dívida… e atenção que o fosso entre a realidade pintada e a real realidade é apenas mais um telhado prestes a ceder… enquanto o mesmo Banco Central dos Endividados continuar a ceder ao vício das jogatanas dos senhores de fraque que apostam para que os telhados partam… E por vezes… Aleluia! Aleluia! Alguns dos senhores de fraque voltam a ser humanos e colocam em factos as jogadas trafulhas dos seus comparsas casineiros, colocando em xeque a anuência silenciosa dos seus amigos bananas… enquanto a classe média, o Zé Povinho, continua a comer o pó do vício insaciável de uma raça de Homens, 1% deles, que são canibais e carniceiros que se alimentam da pobreza e sofrimento de 99% dos seus irmãos e irmãs…
Mas que mundo é este senão um mundo de máscaras e mascarados que escondem a sua perversidade debaixo de telhados de vidro?

Noticia do OJE – Espanha coloca quase 3,5 mil milhões em Obrigações, abaixo do objectivo do Tesouro
Notícia do Expresso – BCE terá comprado €18 mil milhões de dívida portuguesa
Notícia do Diário Económico – Reembolso de dívida pública está garantido
Notícia do Jornal I – Economia já recebeu 63 mil milhões para sobreviver
Notícia do Diário Económico – Empréstimos do BCE sobem para máximos de 20 meses
Notícia do Publico – Ex-quadros do Santander põem a nu esquema para reduzir factura fiscal
Notícia da CNN – How the middle class became the underclass
Notícias de Apoio:
Notícia do Jornal de Notícias – Cinco maiores bancos ganharam 4,7 milhões de euros por dia
Notícia do Diário Económico – Lucro do Barclays sobe 36% e bate previsões

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Em busca de mais conhecimento

Posted on 17/02/2011, in Artigos, Banca, Corrupção, Economia and tagged , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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