A Inflação e os Homens da Lua

“Guerra das divisas” é o foco dos ministros das finanças do G20. Representante do FMI diz que os governos asiáticos têm de combater a inflação com divisas mais “livres”. Inflação na Índia diminui, mas as taxas de juro sobem. FMI e Citigroup afirmam que Vietname tem de atacar o problema da inflação, depois de ter desvalorizado o Dong. Défice do governo americano para 2011 irá ser superior ao total da economia americana. Político da Carolina do Sul quer criar uma moeda própria do Estado. Constâncio preocupado com o preço das matérias-primas.

Hoje vou tentar explicar as variáveis da inflação e que medidas andam os países, um pouco por todo o mundo, a adoptar para a controlar, tentando criar também uma comparação com as medidas que os países desenvolvidos andam a adoptar para tentarem dinamizar as suas economias, vulgo; espevitar o crescimento económico… usando como sempre notícias dos dias mais recentes como base para o texto.

Primeiro ficámos a saber que a principal preocupação dos ministros das finanças que vão estar na reunião do G20, representantes das 20 economias mais exuberantes do planeta, é a guerra silenciosa entre o dólar e o yuan.
Isto abre espaço a uma questão: Não deviam estar mais preocupados com o aumento dos preços dos alimentos, das matérias-primas e do petróleo?
Espero conseguir responder a esta pergunta com o desenrolar deste artigo, na medida que vou tentar descrever que grande parte dos problemas que estamos a enfrentar actualmente advêem dessa guerra, não só mas também.

Hoje também ficámos a saber que o FMI adverte os governos asiáticos a deixarem de controlar a valorização\desvalorização das suas divisas.
Primeiro temos o FMI a tomar posição de parte do mundo contra a outra parte do mundo; ao lado dos Estados Unidos e aconselhando o outro lado do mundo a deixar valorizar as suas divisas enquanto o dólar, por omissão, pode continuar a desvalorizar sem que tal seja motivo de aviso.
Como instituição que se diz independente tal conselho é no mínimo dúbio e tendencioso… mas acho que todos (?) estamos cada vez mais cientes que estas instituições (ditas) internacionais quase pouco mais são que representantes dos grandes interesses económicos ocidentais, por isso…

E hoje tivemos direito a uma (quase) excelente notícia vinda da Índia: a inflação está a baixar por lá… quer dizer, baixou marginalmente dos 8.43% para 8.23%…
Mas como foram obtidos tais resultados quando (quase) no restante do mundo a inflação continua a crescer?
Simples… aumentaram as taxas de juro no Banco Central, o que elevou o custo do dinheiro, o que reduziu o número de pedidos de empréstimo, o que por si acabou por reduzir o capital que está em circulação no país.
Mas esperem lá… a inflação não é sinónimo de aumento do preço dos bens que adquirimos? Que tem a ver essa redução do capital em circulação na economia com o facto da inflação ter reduzido?

Uma redução mais significativa na taxa de inflação de Janeiro podia ter ajudado a reduzir a pressão nas taxas de juro do Banco Central indiano, dizem os economistas; a elevada taxa de inflação pode conduzir o banco central a elevar rapidamente as taxas de juro de forma a acompanhar o aumento do preço dos alimentos e conter o perigo desse aumento se espalhar em pressão inflacionária até outros bens.
In The Wall Street Journal

Mas… mas… não é o aumento da procura que faz disparar a inflação?
Não é isso que ouvimos no quadradinho mágico, da boca dos (pseudo) especialistas, nos jornais, nos média generalistas?

Porque razão o aumento dos juros do Banco Central indiano e a consequente redução de capital em circulação na economia aliviam as pressões inflacionárias?
Simples… a inflação, maioritariamente, é um sintoma do excesso de moeda em circulação e não necessariamente um aumento da procura ou redução na oferta, ou seja, por exemplo… se existirem 10 pessoas com 10 euros cada para comprar 10 quadros, quanto acham que cada quadro pode no máximo custar?
10 Euros.
Mas se existirem 10 pessoas com 100 euros cada para comprar os mesmos 10 quadros, quanto acham que poderá o custar cada um dos (mesmos) quadros?
Pois, 100 euros.
Portanto, o que fez subir o preço do bem não foi o aumento da procura, nem uma redução na oferta, foi um aumento da moeda em circulação.
Este é o sintoma que é descrito estar a acontecer na Índia, de outra forma o Banco Central indiano não conseguiria, com o aumento das taxas de juro, levar com as suas medidas a uma redução da taxa de inflação.
Esta noção de inflação é algo que é recorrentemente sonegada da opinião pública… porquê?
Deixo para vós as possíveis respostas a essa questão…

No Vietname o problema da pressão inflacionária é aparentemente outro, o da desvalorização da moeda.
O FMI diz-nos que a desvalorização, ontem, de 7% do Dong vai aumentar a pressão da inflação sobre a economia vietnamita.
Como?
A primeira pergunta que se deve colocar é:
Como consegue um país desvalorizar a sua moeda?
Simples… injecta (cria) no mercado mais moeda, neste caso, mais 7% de moeda em circulação o que faz com que o valor nominal da moeda perca o valor correspondente ao colocado em circulação, neste caso, 7%.
Portanto, uma vez mais a inflação irá ser causa do excesso de moeda em circulação e não um aumento da procura ou diminuição da oferta de bens.
Hmmm…
Portanto, qual irá ser a medida que o Banco Central do Vietname irá adoptar no futuro para controlar a inflação?
Irá aumentar as taxas de juro.
O que aconteceu na Índia antes do Banco Central ter aumentado as taxas de juro?
Desvalorizou a sua moeda…
Hmm… 1+1=2… Hmmm…

O que levou a Índia, tal como o Vietname e tantos outros países, a desvalorizar a sua moeda colocando em causa o nível de inflação e a estabilidade social e económica nos seus territórios? Sim, porque nenhum país desvaloriza a sua moeda, nem aumenta as taxas de juros no Banco Central “por dá cá aquela palha”, fazem-no como últimas medidas para tentar conter uma depressão económica, uma diminuição da competitividade das suas exportações, ou um sobreaquecimento da economia, vulgo, taxas elevadas de inflação…

O orçamento apresentado pelo Presidente Obama, revelado na segunda feira, foi concebido como um plano de controlo dos gastos no futuro, mas também apresenta a mais assustadora imagem do corrente ano fiscal, que está a caminho de bater o recorde de défice federal e demonstra que o total de dívida já ultrapassa toda a riqueza gerada pela economia americana.
In The Washington Post

Alguns poderão perguntar: O que tem a dívida americana a ver com a inflação no resto do mundo?
Simples… o dólar é a moeda de reserva do mundo, e cada vez que o governo americano gasta a mais isso significa que irá ter de carregar no botão da impressora para criar mais moeda de forma a conseguir pagar o que está em dívida, o que por inerência faz desvalorizar o dólar, dólar que é a moeda usada na transacção da grande maioria dos bens transaccionados no mundo… e se o dólar perde valor, os bens ficam mais caros… e surge inflação a nível global… 1+1=2

O nível monumental a que chegou o défice nos Estado Unidos já está até a colocar alguns americanos em estado de alerta máximo… o último e mais singular caso de que tenho registo até ao momento é o do Senador do Estado da Carolina do Sul, Lee Bright, que propôs a criação de legislação específica para a Carolina do Sul para que em caso de colapso do dólar a Carolina do Sul possa cunhar a sua própria moeda…

No final de contas, a raiz do problema é que não estamos a imprimir o nosso dinheiro livre de dívida. É isso que precisamos fazer. Tal como o fez Abraham Lincoln com os greenback, precisamos de voltar a sermos nós a imprimir o nosso dinheiro e livre da dívida.
In Business Insider

Hmmm… conseguem perceber o que este senhor está a defender?
O que ele está a defender é um sistema monetário livre de dívida baseado no ouro e na prata, o mesmo sistema que providenciou ao mundo centenas de anos de inflação quase ZERO… sim QUASE ZERO!

Este sistema de criação de dívida para saldar dívida que origina inflação contínua de crescimento exponencial só caminha numa direcção… o da desvalorização total do valor nominal do dinheiro papel, porque enquanto os Estados Unidos continuar a imprimir dinheiro para pagar e sustentar um estilo de vida que está totalmente desfasado do mundo em que vive, todo o mundo (países) irá sofrer a constante erosão da inflação, e será constantemente obrigado a desvalorizar as suas moedas de forma a manter-se competitivo nos mercados, o que por si cria ainda mais pressão inflacionista sobre todo este mundo.
Este é mais um exemplo de como o nosso mundo está todo interligado e de como as acções facilitistas e desprovidas do real de uns colocam em causa todo o outro mundo, mundo que já começou a sentir na pele as revoluções geradas por essas políticas de um mundo que aparentemente nada tem a ver com o deles, como o exemplo do Egipto… (nada mais enganador a sensação de nada ter tido a ver com as medidas de uns senhores de fraque sentados num escritório agarradinhos às suas contas de “sumir”!)

E na Europa?
Na Europa tivemos direito a uma afirmação de Vitor Constâncio, actualmente um dos vice- Presidentes do Banco Central Europeu, que disse:

“Não sabemos se estamos perante uma escalada dos preços das matérias-primas ou não. Temos de esperar e ver”, afirmou hoje Constâncio, em entrevista à agência Market News Internacional, citada pela Reuters, reconhecendo que “isto é um assunto preocupante, tal como já sublinhámos”.
In Diário Económico

Não sabem?
Opá, basta olhar para o mundo e ver o que está a acontecer!
Opá, basta olhar para o aumento dos custos de produção na China para saber o que irá acontecer!
Opá, os produtos chineses baratos que durante a última década foram servindo de contra-balanço ao aumento dos valores da inflação total, mesmo quando todos os portugueses sentiam o aumento de quase todos os bens primários, vai deixar de funcionar como tal. Daqui para a frente, mais que todos os outros produtos, irão ser os produtos baratos chineses que irão fazer a inflação disparar, porque irão continuar a ser baratos demais para que a produção na Europa se torne competitiva em relação a eles e porque vão começar a subir de preço se calhar em duas casa decimais, mais de 10% ao mês. Adeus colchão dos últimos 10 anos a que se junta a inflação dos bens alimentares e das energias! Olá inflação!
Percebeste, opá?
Sabes, opá, se calhar daqui a uns tempos andaremos a discutir qual o significado da palavra hiperinflação… ou então que o mundo entrou uma vez mais em contracção porque não conseguiu sustentar tais pressões inflacionárias… “Capiche”, opá?

Conclusão:
Os Gs, militares e guerreiros das finanças deste mundo, apontam para a guerra aberta de desvalorização entre o dólar e o Yuan como a principal preocupação do seu mundo… e avisam os maléficos de olhos em bico para não fazerem aquilo que eles fazem… mundo que na Índia já começou a contrair de dores e que no Vietname se abre aos desprazeres da vida tipo rameira do povo… enquanto nos “states” se discute como e onde se gastar a dívida que se acumula como se fosse minas terrestres prestes a explodir debaixo dos pés do mundo inteiro… e depois.. alguns… alguns seres quase perdidos no meio de tanto tiroteio sem destino, perdidos num mar de ilógicas de numerário, começam a hastear a bandeira branca… Socorrooooo!!! Socorroooo!!!… Socorro digo eu! Não é que ainda existem seres, ainda mais representantes desta nossa terra, que abrem a boca para comer as verdades e brincar aos soldadinhos com as mentiras… os “opás”…
Opá, por vezes era melhor fechar os olhos e imaginar… … … a lua…

Notícia do The Independent – US ‘currency war’ is focus for G20 finance ministers
Notícia do The Wall Street Journal – IMF Official Says Asian Governments Need to Fight Inflation With Freer Currencies
Notícia do The Wall Street Journal – India Inflation Eases, But Rate Rise Looms
Notícia da Bloomberg – Vietnam Must Tackle Inflation After Dong’s Devaluation, IMF, Citigroup Say
Notícia do The Washington Times – Federal deficit on track for a record this fiscal year
Notícia do Business Insider – South Carolina Politico Wants to Create State Currency
Notícia do Diário Económico – Constâncio “preocupado” com preços das matérias-primas

About minhamosca

Em busca de mais conhecimento

Posted on 15/02/2011, in Artigos, Corrupção, Economia and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 3 comentários.

  1. Dissonante

    minhamosca, você leu isso?
    ARÁBIA SAUDITA ATINGIU O PICO, CONFIRMA A WIKILEAKS

    “A Arábia Saudita não dispõe de suficientes reservas de petróleo para aumentar a sua produção , diz telegrama da Embaixada dos EUA em Riad revelado pela WikiLeaks. Este documento é apenas a confirmação daquilo que já se sabia há vários anos e que foi amplamente analisado pelo falecido banqueiro Matthew Simmons , dando origem ao seu livro Crepúsculo no deserto (Twilight in the Desert) . A fuga deste telegrama de Riad serve no entanto para confirmar que as autoridades dos EUA: 1) sabem muito bem que o mundo atingiu o Pico Petrolífero e que entramos agora na fase do declínio da produção; 2) adoptam uma política deliberada de silenciamento quanto a este problema crucial para os destinos humanos.”
    Comentário: resistir.info
    .
    Fonte: http://www.guardian.co.uk/business/2011/feb/08/saudi-oil-reserves-overstated-wikileaks

  2. Dissonante

    Já vi que sim, está postado no dia 13 como
    “Peak oil: We are asleep at the wheel”🙂

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