A Confluência é a Regra

Espanha deve reformar o sistema fiscal para poder crescer, diz OCDE. Alívio da dívida da Guiné-Bissau é positivo para doadores e investidores, diz o FMI. Estado tem que deixar privados ocupar o seu lugar em determinados sectores.

Por vezes temos de sair um pouco de Portugal para se conseguir compreender melhor a lógica funcional das coisas… desta vez quais as noções da OCDE e do FMI sobre as suas políticas e as suas directrizes.

Começando pela OCDE e a sua visão do que há para fazer em Espanha.
Antes de mais, gostava de salientar que estas visões das entidades internacionais para a Espanha divergem no seu âmago muito pouco daquilo que preconizam para Portugal, por isso…
Primeira grande visão da OCDE:

“O sistema fiscal espanhol deve ser reformado para facilitar o crescimento, transferindo o impacto dos impostos do trabalho para o consumo e para o imobiliário.”
In Oje

Descodificando o que por aqui é dito…
O que isto quer dizer é que a OCDE defende que os impostos cobrados às empresas sejam reduzidos e  o seu peso transferido para o consumo e para a compra de habitação. Ou seja, que os impostos para os patrões sejam diminuídos e que os impostos para os restante 99% da população suportem o nível de redução fiscal efectuado nos impostos do 1%… tudo isto em defesa da competitividade da economia… deles(?)
Uma medida extremamente justa e social, sim senhor! Tirem ainda mais ao 99% e reduzam ainda mais a carga sobre o 1%!!!!

Depois a mesma OCDE – por vezes fico confuso com as inversões destes organizações – diz que a crise em Espanha está a ser mais aguda devido a um aumento insustentável do consumo privado, que conduziu ao aumento da dívida privada. (Mas o problema não é a dívida pública????)
Sim senhor… então aumenta-se os impostos sobre o consumo para reduzir o consumo que é insustentável?
Mas tais medidas não costumam levar à contracção económica dos mercados internos em que são adoptadas?
Muito bem, primeiro reduz-se os impostos sobre o 1% e aumenta-se os impostos sobre o consumo para fazer a economia crescer, sabendo-se de antemão que um aumento dos impostos sobre o consumo conduz sempre a uma contracção do mesmo, o que leva invariavelmente a uma menor recolha de impostos por parte do Estado e à deflação dos preços… deflação dos preços que conduz a mais despedimentos… mais despedimentos a mais gastos sociais, e mais gastos sociais a mais gastos do Estado… e a OCDE diz que o fortalecimento das contas públicas é essencial… e como podemos todos constatar, se forem adoptadas as medidas por si defendidas será isso mesmo o que não irá acontecer…
Bela volta esta…

Mas há mais… a OCDE defende a reforma do sistema de pensões, através do aumento da idade da reforma, dos 65 para os 67 anos, e a diminuição das reformas antecipadas – facto defendido também pela UE.
Portanto, o aumento da idade da reforma irá fazer a economia crescer?
Ajudará a reduzir as despesas do Estado?
De certeza que crescimento não gerará! É certinho como o destino!
Reduzir as despesas do Estado… talvez, numa primeira fase, mas pouco tempo depois não reduzirá, pois se mais tempo um trabalhador terá de trabalhar para ter direito à reforma menos postos de trabalho irão estar disponíveis para os jovens que entram no mercado de trabalho… e isso é igual a mais desemprego… sempre… e mais desemprego é igual… à catrefada de coisas que já escrevi acima…
Portanto… medidas que só eles entendem o porquê… por vezes também entendo, não quero é entrar em especulação, porque é garantido como o destino que eles próprios se irão dar ao trabalho de dizer isso por mim!

E a OCDE aplaude as medidas tomadas pelo governo espanhol para reduzir a “excessiva protecção” dos trabalhadores com contractos permanentes, e redução dos valores pagos por despedimentos e a facilidade com que é possível chegar a acordos colectivos.
Não anda isto a tentar ser implementado cá em Portugal? Acho que já ouvi falar em qualquer coisa do género… Meus senhores e minhas senhoras, isto é sempre o mesmo em todo o lado, a uniformidade e uniformização das leis e das políticas a favor dos mesmos 1% de sempre!
Em relação aos pontos positivos(?) desta noção de crescimento económico já descrevi isso uns artigos abaixo…
Ah! Mas atenção que a OCDE também aconselha que seja melhor gerido o sistema de águas… … de forma que reflicta o verdadeiro custo da sua exploração… Ou seja: PRIVATIZEM e deixem de subsidiar as águas de modo que o mercado se torne concorrencial e assim os privados possam capitalizar sobre um dos recursos básicos e mais sensíveis do mundo moderno!
Muito bom, correcto?

E agora salto para o FMI que diz estar verdadeiramente feliz com o facto da Guiné-Bissau ter aceite um empréstimo de mil milhões de dólares, nas suas palavras: “um alívio da dívida”… (?)
Esperem lá… a Guiné-Bissau endivida-se em MAIS um milhão de dólares para pagar dívidas e isso é um alívio?????
Ah! É um alívio para os DOADORES (quem empresta) e INVESTIDORES!!!! (Nas palavras do FMI!)
Ou seja… servem os mil milhões de dólares para pagar aos credores que na sua maioria foram aqueles que deram o aval ao empréstimo do FMI à Guiné-Bissau.
Servem também para o investimento privado externo, porque com os empréstimos do FMI vêm sempre linhas directoras económicas obrigatórias para os países que os recebem, para que sejam liberalizados os sectores económicos rentáveis.
Qual a diferença entre a Guiné-Bissau, a Grécia e a Irlanda? Qual a diferença quando cá entrar em Portugal?
É tudo farinha do mesmo saco para o FMI! Dinheiro que empresta para pagar aos credores da dívida desses países, que são sempre os mesmos que dão luz verde à existência desse empréstimo por parte do FMI, e liberalização dos sectores financeiros estratégicos de cada país para que os investidores privados dos países credores da dívida possam vir explorar e canalizar essa riqueza para fora das fronteiras do país ajudado… Bela ajuda esta, hein????

E agora gostava de acabar com Horta Osório, o novo CEO – palavra “chic” para dizer Presidente – do banco inglês LLoyds:

“os Estados fizeram bem intervir na economia, face a uma crise sem precedentes, mas agora têm de baixar o seu peso na economia e deixar os privados ocuparem determinados sectores”
“O Estado não é um bom detentor de activos. O Estado não percebe de lucro”
“É o sector privado e às empresas” que cabe “criar esse valor acrescentado”, pelo que o “Estado devia baixar o peso dos gastos na economia, sair de determinados sectores e deixar os privados ocuparem esses espaços. De certeza que os privados vão fazer melhor uso desses activos”

In Jornal de Negócios

Quis fechar com este senhor, com nome de agricultura que na verdade é um campino das finanças modernas, que tenta tourear a mente do Zé Povinho com conceitos desprovidos do social e mergulhados em numerário…
1º – Sabe senhor Horta, o Estado não existe para gerar lucro, o Estado existe para gerir os impostos pagos pelo Zé Povinho e pelas empresas e aplicar o valor dos impostos em infra-estruturas e serviços que sejam necessários à sociedade que lhe paga os impostos. Apenas no seu mundo, Sr. Horta, o Estado existe para gerar e gerir lucros!
2º – Sabe senhor Horta, sem dúvida que os privados irão fazer melhor uso desses activos, não tenho a mínima dúvida em relação a isso, o Sr. Horta esqueceu-se inadvertidamente foi de mencionar que os privados irão fazer melhor uso desses activos em BENEFÍCIO e PROVEITO PRÓPRIO!!!!
3º – Sabe senhor Horta, é o seu mundinho… pequenininho e minúsculo que vê apenas numerário, que faz com que tudo o que nos rodeia seja apenas “pilim”… sabe senhor Horta Osório, há mais vida para além da sua minúscula noção de vida!!!!!!

Quis fechar com o campino com nome de agricultor como forma de mostrar que as instituições internacionais de renome, FMI, OCDE, UE, etc, vêem tudo e todos com os mesmos óculos, são verdadeiros clones uns dos outros em que a uniformização de ideias, conceitos, reformas e pensamentos são algo digno de um Óscar, pois é mesmo difícil num mundo tão diverso e distinto conseguir seguir o mesmo texto tal e qual clones!

Conclusão:
OCDE que se confunde com FMI e banca que se confunde com OCDE… e UE que se confunde com FMI que também se confunde com OCDE… é esta a imagem das nossas (?) instituições internacionais de renome… uma uniformização de pensar e agir que mais parecem clones… talvez robôs… talvez ponto do teatro… quem sabe apenas caixas de voz, gravações… ou talvez seja uma convicção universal que tem escapado ao pensar e sentir de 99% dos homens que pensam e vivem este e neste mundo…
Já viram que dentro da (falsa) confusão de opiniões das várias instituições internacionais a confluência é a regra? Bastava uma organização chamada, por exemplo: FOMCIUDEE… para nos dizer tudo no formato de nada para nós… porquê tantas a dizerem sempre tudo igualzinho?

Notícia do OJE – Espanha deve reformar o sistema fiscal para poder crescer, diz a OCDE
Notícia do OJE – Alívio da dívida da Guiné-Bissau é positivo para doadores e investidores, diz FMI
Notícia do Jornal de Negócios – Vídeo: Estados têm que deixar os privados ocuparem o seu lugar em determinados sectores

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Em busca de mais conhecimento

Posted on 20/12/2010, in Artigos, Banca, Corrupção, Economia and tagged , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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