A Cacofonia Num Mundo Que é Deles

Fundo europeu chega para todos e risco de colapso do euro é zero. Presidente do Banco Central Alemão diz que o fundo de apoio ao euro pode ser aumentado. Comissão Europeia  quer duplicar a dimensão do fundo de emergência. Governo alemão diz que aumentar o fundo de apoio não se coloca. A ajuda da Alemanha tem limites. Bundestag vota o orçamento de 2011 como o segundo maior endividamento de sempre. Como um monumental fundo de apoio se pode revelar escasso. FMI: Fosso entre ricos e pobres esteve na origem da crise financeira. Empresários pedem contractos flexíveis para evitar o FMI.

Fiquei confuso e zonzo só de escrever o parágrafo de “apresentação” das notícias que servem de base a esta dissertação. Verdadeira cacofonia de intenções, desejos e desígnios.

Começando pelo início…
Hoje, o responsável pelo Fundo de Estabilização, Klaus Regling, disse-nos que o fundo de apoio às economias europeias é suficientemente grande para garantir a solvabilidade de todos os Estados membros, e que o risco para o euro é zero.

Também hoje, o Presidente do Banco Central Alemão e que faz parte do conselho de administração do Banco Central Europeu, e principal candidato à sucessão do actual Presidente do BCE, diz-nos que os governos europeus podem vir a ampliar o fundo caso seja necessário.

Ainda hoje, é-nos dito que a Comissão Europeia está a envidar esforços para que o fundo de apoio, no valor de 440 milhões, venha a ser duplicado.

Continuando, hoje, o porta-voz do ministro alemão das finanças alerta-nos que a expansão do fundo de apoio é algo que nem se coloca.

E uma vez mais hoje, o porta-voz dos assuntos económicos da bancada parlamentar da CDU de Angela Merkel, reafirma que a ajuda da Alemanha tem limites.

Mas a quantas ficamos?
Na mesma, talvez mais, o dobro, nem pensar em tal ou vamos fechar a torneira?
A verdadeira cacofonia representativa da vitalidade democrática da União Europeia!
É óbvio que estou a “gozar” com esta situação, tal a díspar não confluência de opiniões, ainda para mais quando emanam quase todas da Alemanha e de alemães, exceptuando a posição “colectiva” da Comissão Europeia. Assistimos à quase incrível diferença de opinião do Banco Central Alemão e do Banco Central Europeu (representado pelo responsável do fundo), quando as suas sedes são quase porta com porta e os membros mais importantes do Banco Central Alemão quase todos terem assento no Banco Central Europeu. Juntamos as posições expressas pelo governo Alemão e obtemos tal cacofonia que só eles, num mundo que é deles conseguirão compreender.

Mas como tal confusão poderá ser “consumida” pelo comum dos leitores como apenas divergência de opinião, nada melhor que dizer que hoje também soubemos que o mesmo governo alemão que diz “nem pensar a mais despesismo”, apresentou uma proposta de orçamento para o ano de 2011 que é a segundo mais despesista da História na Alemanha.
Mais cacofonia?
O país que mais exige que todos os outros países cortem e recortem os seus orçamentos, que se vende aos Zé Povinhos da Europa como sendo o rei no controlo das despesas públicas, eis que faz exactamente o aposto ao que exige e ao que apregoa!
Será apenas uma divergência de opinião? Talvez…
Pois é, estas “divergências de opinião” no seio da classe dos “bananas” que nos (des)governa usualmente são mais que meras divergências, digamos antes que são mentiras “pontuais recorrentes”, ou “jogadinhas no xadrez do engano”.

Qual das afirmações destacadas neste texto ir-se-á revelar verdadeira?

E como ainda podem estar confusos ou em dúvida em relação às “mentiras pontuais recorrentes, ou jogadinhas no xadrez do engano”, que tal analisar os números reais, os verdadeiros números do fundo de apoio às economias europeias:
– Apregoado 750 mil milhões de euros, sendo que 1\3 vem do FMI, ou 250 mil milhões, e o restante, 500 mil milhões, da União Europeia.
– Dos 500 mil milhões da União Europeia, 440 mil milhões vêem do fundo recentemente criado e 60 mil milhões de outro “instrumento” já anteriormente orçamentado pela UE para tais contingências
– O fundo de apoio está classificado como AAA, ou triplo A, classificação que requer que 40% do seu valor fique cativo em dinheiro, ou seja, não pode ser emprestado. Assim chegamos a um valor disponível total de 250 mil milhões por parte da União Europeia, aos quais juntamos os 60 mil milhões anteriormente destacados, e ficamos com 310 mil milhões de euros disponíveis para empréstimo… não os badalados 500 mil milhões de euros… sempre são menos 190 mil milhões de euros, quase a quantia somada dada à Grécia e à Irlanda…
– Os 250 mil milhões disponibilizados pelo FMI estão e estarão sempre sujeitos à aprovação dos países pertencente ao FMI (Grande parte do mundo). Quem nos garante que, a determinada altura, não dizem finito, no more, acabou-se?
E se for necessário mais de 250 mil milhões, irão dizer “ok” uma vez mais sem mais nem menos?
Pode ser que sim, mas pode ser que não…

Portanto, esta é só mais uma das cacofonias com que nos bombardeiam de forma a ficarmos cada vez mais confusos e percebermos menos a sua história… ou seja, é uma cacofonia num mundo que é deles…

E já que coloquei o FMI no seio das cacofonias que o mundo deles nos dá a conhecer.. que tal demarcar a fabulástica conclusão que:

O crescimento do fosso entre ricos e pobres esteve na base da crise financeira actual e da Grande Depressão dos anos 30. Segundo um estudo feito pelos técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI), há uma relação causa/efeito entre uma maior desigualdade na distribuição de rendimentos e a criação de condições para o surgimento de uma crise financeira. Processos que ocorreram nos anos 20, antes da Grande Depressão, e agora, antes da explosão da crise financeira.

In Jornal I

Esperem lá! Esta não é a mesma instituição que apela à redução dos apoios dos Estados aos mais pobres, às privatizações dos centros económicos nevrálgicos dos Estados – água, electricidade, etc. (como exemplo) – que conduz ao aumento das tarifas pagas pelos pobres?
Não é a mesma instituição que “obriga” que as fronteiras comerciais entre países sejam abolidas, medidas que invariavelmente conduzem ao aumento do desemprego?
Cacofonia? Também?!?!
Pois é, a cacofonia é mesmo a forma de vida num mundo que é deles!
Por acaso alguém por aí vê governos a aprovarem medidas que ajudem a diminuir o fosso entre pobres e ricos?
Acham que esta crise vai passar ou continuar a agravar-se?

“Nos Estados Unidos, entre 1920 e 1928, o rendimento detido pelos 5% mais ricos aumentou de 24% para 34%. Entre 1983 e 2007, esse indicador passou de 22% para 34%. Ao mesmo tempo, o nível de endividamento dos restantes 95% da população praticamente duplicou nos dois períodos pré-crise.”

“Apesar da qualidade de vida da população ter continuado a melhorar na década de 70, grande parte dessa melhoria foi alicerçada na alavancagem, isto é, no crédito. A partir de 1970, os ganhos reais anuais dos 10% norte-americanos mais ricos subiram mais de 70%, ao passo que os dos 10% mais pobres caíram cerca de 60%. Para os restantes 80%, o rendimento desceu ligeiramente. Ainda assim, o aumento substancial da desigualdade de rendimento entre os dois extremos não foi acompanhado por um desfasamento tão grande do consumo. O que significa que, apesar estarem a ganhar menos, os mais pobres continuaram a comprar.”

“Entre 1976 e 2006, por cada acréscimo de um dólar no rendimento dos EUA, 58 cêntimos foram captados pelos 1% mais ricos. Isto foi acompanhado pelo endividamento dos mais pobres, com os ricos a investirem mais no sistema financeiro, gerando um circuito que propícia um aumento da especulação.”

In Jornal I

Mudanças? Algures? Onde? Cada vez temos mais pobres e mais ricos cada vez mais ricos!
Pois é, a venda de casas novas de luxo em Portugal disparou 9% de Setembro de 2009 a Setembro de 2010! Crise? Onde? E para quem?

João Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra:

“Dadas as políticas que estão a ser implementadas, duvido que as desigualdades diminuam.”

In Jornal I

E nada melhor (?) que fechar este texto com a lógica da vida deles num mundo que é, cada vez mais, apenas deles:

“Fórum da Competitividade defende contratos flexíveis para jovens e desempregados para evitar uma intervenção do FMI em Portugal.”

“(…)os empresários chamam atenção para a necessidade de estabelecer dois acordos políticos, um de imediato e de urgência e um outro de médio e longo prazo 2012-2016. Quanto ao primeiro, em que se insere o congelamento salarial,(…)”

In Diário Económico

E como a cacofonia deles consegue ir mesmo longe, eis os pontos que irão(?) conseguir aprovar nos próximos 5 a 10 anos:

* Acordo político de médio-prazo 2012-2016

1. Modernização da constituição

2. Revisão da forma de governo por a promover governos maioritários, alargar as legislaturas para cinco anos e reforçar o estatuto do Ministro das Finanças
(…)
6. Reformulação das políticas de Pensões

7. Reformulação da política de atribuição de subsídio de desemprego e de reinserção

8. Revisão da legislação de defesa da concorrência

9. Modernização do mercado de trabalho

10. Eliminação do monopólio dos sindicatos na contratação colectiva

11. Redução acentuada da tributação sobre o trabalho

12. Regulação equilibrada da Lei da Greve

In Diário Económico

Alguém por acaso viu por aí alguma proposta que vise diminuir o fosso entre os ricos e os pobres?
Acham que são estas as soluções para a crise que estamos a enfrentar?

E é assim um mundo que é deles, feito à medida deles, onde tudo funciona em prol deles… esperem, ainda existem algumas coisitas que precisam de ser aprimoradas de forma que todas as coisas funcionem ainda melhor direccionadas para o mundo que vai acabar por ser só e apenas deles e para eles!

Notícia da Agência Financeira – Fundo europeu chega para todos: risco de colapso do euro é «zero»
Notícia do Público – Presidente do banco central alemão diz que o fundo de apoio ao euro pode ser aumentado
Notícia do Jornal de Negócios – Comissão Europeia quer duplicar dimensão do fundo europeu de emergência
Notícia do Jornal de Negócios – Governo alemão diz que reforçar fundo de emergência europeu “não se coloca”
Notícia do Jornal de Negócios – “A ajuda da Alemanha tem limites”
Notícia do Dinheiro Digital – Bundestag vota OE2011 com 2º maior endividamento de sempre
Notícia do The Wall Street Journal – How Europe’s Massive Rescue Fund Could Fall Short
Notícia do Jornal I – FMI. Fosso entre ricos e pobres esteve na origem da crise financeira
Notícia do Diário Económico – Empresários pedem contratos flexíveis para evitar o FMI

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Posted on 26/11/2010, in Banca, Corrupção, Economia and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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