Uma em Quatro…

Se pensa que os pacotes de estímulo à banca foram maus, espere até ver o que vai acontecer com os pagamentos dos empréstimos para compra de casa. Irlanda sem dinheiro e à beira da bancarrota. Juros da dívida na Irlanda já passam dos 8%. Os detalhes negros da crise na Irlanda.

Estamos quase, quase a entrar no ponto sem retorno para a Irlanda e por inerência e não só, também para Portugal, para a Espanha, para a Grécia, para a UE, para o Euro e para a economia ocidental.

Hoje em dia temos duas frentes distintas sobre a qual consigo basear o que afirmei em cima: A desvalorização massiva do dólar por parte dos Estados Unidos, sustentada por mais um pacote de estímulo no valor de 600 mil milhões de dólares, e o que se passa cá deste lado do oceano com a crise das dívidas públicas a ultrapassar a barreira do matematicamente sustentável.
Hoje vou abordar o que se passa cá deste lado do oceano.

Morgan Kelly:

Em Setembro, a Republica da Irlanda silenciosamente deixou de ser uma entidade fiscal autónoma, e passou a ser uma repartição do Banco Central Europeu. (…)
Setembro marcou o ponto sem retorno da crise bancária da Irlanda. Durante esse mês, 55 mil milhões de euros de obrigações bancárias (detidas principalmente por bancos ingleses, alemães e franceses)  tiveram de ser pagas, na sua grande maioria através da contracção de empréstimos ao Banco Central Europeu. (…)
Como contribuinte, o que significa um pacote de estímulo no valor de 70 mil milhões de euros? Significa que todos os cêntimos provenientes dos impostos durante os próximos dois a três anos servirão para pagar as perdas do Anglo Irish Bank, todos os cêntimos dos próximos dois anos irão para o AIB, e todos os cêntimos durante o próximo ano e meio irão para os outros bancos. Por outras palavras, o Estado irlandês está insolvente: as suas responsabilidades excedem em muito qualquer forma realista de as conseguir pagar.(…)
O próximo acto da crise irá representar os mesmo temas de maus empréstimos e de dívida externa, só que desta vez será uma verdadeira tragédia. Desta vez os maus empréstimos serão os empréstimos para compra de casa própria, e o credor que não irá receber o seu dinheiro será o Banco Central Europeu.
Enquanto o primeiro round da crise bancária se centrou numas quantas dúzias de grandes instituições, o próximo round irá envolver centenas de milhares de famílias com empréstimos para compra de casa. Entre empréstimos renegociados e incumprimentos no pagamento, pelo menos 100.000 desses empréstimos (1 em cada 8 ) já estão debaixo da linha de água, e ainda agora as coisas começaram.
O sentimento que está a crescer entre quem tem empréstimos é que enquanto eles seguiram as regras, os bancos não, persuadindo-os cinicamente para contraírem empréstimos acima das suas reais capacidades económicas. Enfrentando a escolha de cumprir as obrigações para com as suas famílias ou para com os bancos – alimentos ou empréstimos – cada vez mais pessoas estão a escolher a primeira opção.

A Irlanda enfrentou uma escolha dolorosa entre impor uma resolução aos bancos que eram grandes demais para serem salvos ou tornar-se insolvente, e, seja por que razão tenha sido, escolhemos a segunda opção. As nações soberanas têm de tomar opções políticas, e nós já não somos uma nação soberana, seja qual for o sentido dado a soberania.
(…)

In Irish Times

Podia ter escrito isto pelas minhas palavras, mas nada melhor do que lê-las pela escrita de quem lá vive. e princiaplmente quando se é um economista.

Hoje os juros cobrados à Irlanda passaram a barreira dos 8% – Portugal a dos 7%.

Pela primeira vez os órgãos de comunicação social em Portugal abordam a falência da Irlanda:

Hoje calcula-se que uma em cada quatro casas compradas nessa altura valha menos do que aquilo que o proprietário ainda tem de pagar ao banco. Isto, aliado à subida do desemprego, está a fazer com que o malparado esteja a aumentar a um nível assustador e os bancos vivem a ameaça das falências.

Quase 5% das hipotecas estavam em atraso em Junho, e de então para cá a situação certamente piorou. Este quadro leva alguns analistas de mercado a prever mais uma crise no sistema financeiro irlandês. E desta vez é quase certo que o Estado já não terá recursos para voltar a salvar os bancos.

In Agência Financeira

Não sei se conseguem fazer os paralelismos entre o que aqui coloquei sobre a Irlanda e o que se passa em Portugal.
Bem, caso não consigam, eu vou dar uma mãozinha.

Qual foi a opção que Portugal e Irlanda tomaram aquando da crise bancária de 2007?
Pacotes de estímulo para salvar os bancos, pondo em causa a solvência do Estado.
Quem anda a financiar a dívida do Estado português e do Estado irlandês?
O Banco Central Europeu.
Que margem temos para conseguir absorver outra onda de choque financeira?
Quase nenhuma.
Se na Irlanda acontecer o que cada vez mais analistas prevêem o que acham que irá acontecer a Portugal?
Taxas de juro acima dos 10% – garantidamente. Uma taxa de juro acima de 10% é igual a falência do Estado.
Acham que irão ser apenas os irlandeses que irão deixar de conseguir pagar os empréstimos de compra de habitação?

O fantástico nesta história é que foi a banca quem despoletou a primeira onda de choque financeira que varreu grande parte das economias mundiais. Essa primeira onda de choque foi atenuada com opções políticas que colocaram em causa os países e as suas pessoas de forma a salvar os principais culpados, a banca. Agora que os países já não conseguem gastar mais, porque estão endividados até ao pescoço, é o Banco Central Europeu a ajudar os seus filhos bancos às custas da venda das soberanias nacionais para as mãos de quem despoletou em primeira mão a crise. Por fim serão os Zé Povinhos destes países a deixarem de pagar ao Banco Central Europeu aquilo que eles próprios criaram. E assim se encerra o circulo onde tudo o que é perdido vai parar às mãos dos mesmos que iniciaram a derrocada.

E sabem meus senhores, as contas hoje apontam para que UMA em cada QUATRO famílias irlandesas venha a perder a sua casa.
Quantas famílias acham que irão fazer parte do grupo que viverá abaixo do limiar da pobreza daqui a dois anos?
E em Portugal quantas famílias daqui a dois anos serão uma fotocópia daquilo que começa a ser descrito para a Irlanda? UMA em cada QUATRO? TRÊS em cada QUATRO?
Estaremos cá para assistir, mas garantidamente a imagem é para piorar muito antes sequer de vir infimamente a melhorar…

Notícia do Irish Times – If you thought the bank bailout was bad, wait until the mortgage defaults hit home
Notícia da Agência Financeira – Irlanda sem dinheiro e à beira da bancarrota
Notícia do Business Insider – Here Are The Ugly Details Behind The Irish Mortgage Crisis
Notícia do Jornal de Negócios – Juros da dívida da Irlanda rompem os 8%
Notícia do Público – Juros da dívida a dez anos dispararam para 7,1 por cento

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Em busca de mais conhecimento

Posted on 10/11/2010, in Artigos, Banca, Economia and tagged , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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