Os Bostonianos

Primeiro-ministro português não percebe juros da dívida em alta. Chineses entram na EDP e no BCP. Banco Alimentar Contra a Fome já ajuda perto de 300 mil portugueses.

Na visita do presidente Chinês ao nosso país que hoje termina, percebe-se que a “ajuda” que os Chineses nos vão dar ao comprar dívida, já está a ser devidamente compensada. O país já nem de tanga vai. Vai nu, com tudo ao léu e totalmente em desespero. A EDP, a empresa eléctrica com as taxas mais altas dos 27 e que detém o monopólio em Portugal, vai receber mais uma torrente de dinheiro para distribuir pelos seus accionistas. O BCP, o maior banco privado nacional que tem conseguido evitar os rumores de falta de liquidez e que tem comprado dívida nacional (recorde-se que compra dinheiro a 1% ao BCE e o empresta ao estado entre 6 a 7%) nos últimos meses juntamente com outros bancos para se financiar, vai receber um empurrãozinho dos Chineses que se começam a apoderar pouco a pouco de tudo o que ainda mexe nos países da periferia da Europa. Na Irlanda e na Grécia a abordagem é igual. Hoje já não são precisas bombas nem soldados (a não ser internamente para controlar o povo e mantê-lo escravo) hoje conquistam-se nações desta forma.

O ex-director do FMI, Jacques de Larosière, veio (a pedido de alguém, talvez…) dizer: “Portugal está a fazer muito bem o trabalho, está a fazer as coisas certas. O FMI não faria muito mais”. Ou seja, basicamente, as medidas que estão a ser tomadas seriam as mesmas que o FMI tomaria (talvez à excepção do 13.º mês que também seria abolido). A tomada dos recursos nacionais, os recursos que produzem riqueza, em vez de caírem nas mãos de privados para saldarem a dívida aos mercados, caem nas mãos de nações como a China que têm poder para o fazer. O futuro nos dirá se assim é ou não…

Enquanto isso, o nosso querido líder veio dizer que não percebe o porquê de os juros da dívida nacional se manterem tão altos, tendo atingido o máximo histórico de 6,8%. Recorde-se que o seu ministro das finanças já disse que uma taxa de juro a rondar os 7% não deixaria grandes alternativas ao país se não recorrer ao FMI… Mas toda a gente com dois dedos de testa percebe perfeitamente o porquê de os mercados (mercados esses que incluem bancos nacionais que lucraram em conjunto este ano, e apesar da crise, 4 milhões de euros por dia) continuarem a especular e a ganhar valores obscenos com a situação em que nos encontramos. Esta afirmação só vem mostrar que o primeiro-ministro está a leste do país real, vive num conto de fadas e que julga que continua a enganar quem já lhe viu as cuecas. Quem empresta dinheiro ao país sabe perfeitamente o lodo político, o lodo social e a instabilidade existentes em Portugal. Sabe que o povo está de rastos e que a economia vai entrar em recessão. Sabe que o orçamento de estado recém aprovado é para preparar o terreno a uma moção de censura e que foi estabelecido numa tentativa vã de acalmar os vampiros pensando que eles não iriam continuar a cheirar sangue. E se ele jorra…

Esta semana fui visitar como é costume um grande amigo meu. Na casa dos 50, inválido e desempregado, vive actualmente uma situação terrível e não fosse ter casa própria, teria certamente que ir pedir para a rua. Pela primeira vez na vida dei directamente comer a um amigo para que ele não passasse fome. Este é apenas um caso que espelha o que grassa por esse país fora. Muita miséria escondida, muita gente alimentada a pão e sopa. As organizações de apoio social não têm mãos a medir e não conseguem dar vazão a tanta gente necessitada. Segundo dados recentes, 280 mil portugueses dependem do Banco Alimentar para comer. Quantos mais dependerão dos pais idosos, dos vizinhos, das misericórdias, dos caixotes do lixo? Pergunto a quem me quiser ouvir, se alguém neste país que tenha de pagar para ter um tecto e viva sozinho, pode viver com um ordenado mínimo? Pergunto a qualquer político e empresário de colarinho branco se conseguia viver com 450 euros mensais, se conseguia comer, vestir os filhos, pagar a renda ou a mensalidade da casa, e meter gasolina no carro para ir para o trabalho. Talvez nem com o dobro disso conseguissem passar do dia 10, mas a verdade é que milhares de portugueses nem com metade disso vivem.

Em 1765, o Parlamento Britânico aprovou a imposição de um imposto às colónias britânicas na América. O imposto tinha o nome de “imposto de selo” e traduzia-se na obrigatoriedade de todos os documentos oficiais, jornais, livros, panfletos, etc, serem impressos em papel com o selo britânico. O principal objectivo seria financiar o exército permanente estacionado nas colónias após a guerra contra os Franceses e financiar o império. Os colonos não gostaram, em particular os habitantes de Boston, que viram neste imposto um imposto sobre o conhecimento e contra o princípio de não existência de exércitos permanentes defendido pelos futuros pais fundadores dos Estados Unidos da América como Franklin e Adams. Ora os Bostonianos não tiveram por meias medidas e opuseram-se ferozmente a este imposto, recusando o seu pagamento por ter sido imposto contra o seu consentimento e enfrentando o exército britânico, semeando assim a semente da revolta que iria culminar na independência anos mais tarde. O imposto nunca chegou a ser efectivo.

Costumo dizer que a memória é efémera, mas que a História é implacável. Assim como nós estudamos longos períodos da História como se estes tivessem acontecido em dias, também a História olhará para este período de 30 anos em Portugal e julgará o seu povo e os seus políticos, não como os Bostonianos, mas, quem sabe, como Bostanianos.

Notícia no Público: Sócrates diz que não há justificação para subida dos juros da dívida

Notícia no Público: Eléctrica chinesa quer entrar no capital da EDP

Notícia no Jornal de Negócios: Maior banco chinês poderá comprar 10% do BCP

Notícia no DN: Ex-director geral do FMI está “impressionado” com as medidas tomadas em Portugal

Notícia no Público: A classe média está a chegar à sopa dos pobres

Posted on 07/11/2010, in Artigos, Uncategorized. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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