A Gordura Insultuosa

Entrevista de Henrique Neto vem agitar o lodaçal.

Hoje tive o privilégio de ler a entrevista mais séria e lúcida (e por isso mais sincera) dos últimos meses ou como um simples homem pode deixar o Governo do seu próprio partido com as orelhas a arder.

Henrique Neto, com 74 anos de idade, empresário da Marinha Grande, terra de gente de barba rija, que começou como aprendiz de carpinteiro e não com o cu virado para a Lua, deu uma entrevista hoje ao Público que é uma autêntica lufada de ar fresco e verdadeira pedra, não no charco, que a água há muito se deixou de ver, mas no lodaçal em que este país se encontra actualmente atolado. Entre críticas duríssimas ao primeiro-ministro e ao seu ministro das finanças, disse o que muitos portugueses sabem e deu voz à revolta que temos calada e que nos vai consumindo dia após dia.

Antes de passar às suas sábias palavras, quero deixar bem expresso o meu repúdio pelo silêncio do presidente da República. Um homem que não sabe dar um murro na mesa, um homem que não se dirige ao país no momento mais difícil dos últimos 35 anos, não merece o lugar para o qual foi eleito. É neste momento um ocupa que serve apenas para manter o status quo da gordura do estado e da oligarquia tal como Henrique Neto nos delicia nas suas palavras. Os ditadores nascem porque têm pulso, porque têm sangue na guelra, porque tomam medidas e falam olhos nos olhos com o povo. A linha entre um grande líder e um ditador é muito ténue, mas as suas raízes começam por cavar a terra da sociedade da mesma maneira.

Depois das tristes cenas com que tanto o primeiro-ministro como o ministro das finanças nos contemplaram na televisão a semana passada, em que se mostraram muito sérios e taciturnos depois de meses de sorrisos e palmadinhas nas costas, depois de o responsável pela gestão financeira de todo um país ter o desplante de perguntar à oposição em plena Assembleia da República onde querem que ele corte mais na despesa, é fácil (e triste) de constatar que o país é neste momento um comboio desgovernado. Eis as palavras de Henrique Neto:

(…) nestas circunstâncias, falar da coragem do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, como alguns têm feito, é um insulto de mau gosto a todos os portugueses que trabalham, pagam os seus impostos e vêem defraudadas as suas expectativas de uma vida melhor. As medidas propostas, sendo inevitáveis, dada a dimensão da dívida e a desconfiança criada pelo Governo junto dos credores internacionais, não tocam no essencial da gordura do aparelho do Estado e nos interesses da oligarquia dirigente. Mas o pior é que estas medidas, pela sua própria natureza, não são sustentáveis no futuro e não é expectável que, com este Governo, se consiga o crescimento sustentado da economia.

Já aqui foi abordado em vários textos a inevitabilidade da tomada de posse do FMI sobre os destinos do país. Seja através da “ajuda” directa como aconteceu com a Grécia, ou através do acesso ao fundo monetário europeu, patrocinado em 33% pelo FMI, 2011 afigura-se como um ano de grande festim para os credores internacionais.

Um Governo que deixou chegar as finanças à presente situação, dificilmente evitará a vinda do FMI.

Mas é no ataque mais duro e frontal a José Sócrates que Henrique Neto diz o que nunca nenhum outro político ousou dizer sobre este Governo, ou que nenhum outro órgão de comunicação social ousou divulgar.

(…) José Sócrates iludiu, durante cinco longos anos, todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente.
Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.

(…) a dívida pública que os últimos governos deixaram acumular deveria constituir crime público. Porque nos tornou dependentes dos credores internacionais e coloca em causa o bem mais precioso de qualquer país, que é a independência nacional. Que, no caso de Portugal, tem mais de oito séculos e custou muito sofrimento.

E termina em jeito de crítica aos Portugueses:

É inegável que existe um bloco central inorgânico na política portuguesa, que defende interesses privados ilegítimos e permite a acumulação de altos e bem pagos cargos na administração do Estado e nas empresas do regime. O que é facilitado pelo chamado centralismo democrático praticado nos diversos partidos políticos e pela habitual passividade e clubismo do povo português.

Não sei quando é que os portugueses dirão “basta!”. Mas sei que o maior problema resultante da imoralidade das classes dirigentes é a pedagogia de sinal negativo que isso comporta. Infelizmente, muitos portugueses têm a tentação de pensar que, se alguns enriquecem de forma fácil e rápida por via da sua actividade política, isso também lhes pode acontecer a eles no futuro.

Antes de se poder resolver um problema, há que saber primeiro o que o causou e porquê. Os Portugueses têm de perceber que este governo, esta democracia, esta oposição, não os representa. Não pretende gerir um país para deixar às gerações que os irão suceder. É com contributos de intervenções como esta que essa tarefa vai sendo feita, mas será que vai a tempo de nos abalar e demover para as grandes dificuldades que se avizinham?

Notícia no Público: Austeridade “não toca na gordura do Estado e nos interesses da oligarquia

Posted on 04/10/2010, in Artigos. Bookmark the permalink. 4 comentários.

  1. Observador

    Isto escrevi eu ontem. Penso que se aplica, como comentário, claro a este texto, mas também em seu apoio.

    Desabafos

    Mais uma vez, como se fosse a última, vieram-nos anunciar na semana que passou, mais austeridade de forma galopante, corte de salários na função pública, cortes de apoios sociais generalizados, aumento de impostos, idem, idem, aspas, aspas, etc., etc.

    Mais uma vez, como se não houvesse antecedentes recentes que não se esquecem, como se não tivéssemos memória, vieram-nos anunciar que depois deste pacote não serão precisos mais cortes, como se tudo ficasse resolvido, como se fossemos cegos, surdos e mudos, como se não tivéssemos já visto este filme em várias reprises recentes.

    Sabemos que a crise é grande, sabemos que a crise foi importada, sabemos que a crise domesticamente tem sido ampliada todos os dias, mas também sabemos que quando ela apertar mesmo a sério, quando deixarem de nos emprestar dinheiro para os bens essenciais desde os alimentos até à energia, quando nos fecharem as fronteiras, vai haver muito mais fome do que aquela que já por aí existe. E isso sendo péssimo, pode ser mesmo muito perigoso em todos os sentidos. Cuidado.

    Venha o FMI ou não venha o FMI, mas tomem-se as medidas exemplares, que têm sido continuadamente adiadas, como por exemplo:

    – Corte substancial no Orçamento da Presidência da República;
    – Corte substancial no Orçamento da Assembleia da República;
    – Corte substancial no Orçamento do Governo;
    – Corte substancial nos Orçamentos dos Governos Civis;
    – Corte substancial no apoio aos partidos políticos;
    – Corte substancial nos Orçamentos dos Institutos, Autoridades, Entidades, Fundações, Empresas Públicas e outros sorvedouros de dinheiros públicos e empregadores da classe politica.

    Quando estas medidas forem aplicadas, veremos menos carros grandes e pretos a circular sempre apressadamente como agora acontece todos os dias por todo o lado, saberemos que as viagens serão mais pensadas, saberemos que os banquetes serão reduzidos, e até, com estes exemplos, as Câmaras Municipais colaborarão de boa-vontade na redução dos seus orçamentos, e uma das formas a seguir pelas Autarquias, para que as situações gritantes não venham a sofrer cortes de apoios, será sem dúvida a redução dos eleitos a tempo inteiro, e seus séquitos, independentemente dos custos políticos que lhes possam vir a estar associados.

    Mas em simultâneo, porque o país não pode parar e tem que ganhar um rumo orientado e responsável, têm que ser incentivadas as exportações que já se vão fazendo e continuar pelas pescas e agricultura, no sentido da fome poder ser sustida e criado emprego, mas também aumentadas as exportações de peixe, que podemos capturar em quantidade e qualidade, bem como de produtos hortícolas e frutícolas que podemos produzir também em quantidade e qualidade. Será preciso algum investimento, mas como é produtivo, que se faça já. É só aproveitar-se a nossa Zona Económica Exclusiva, a maior da Europa, e as potencialidades dum grande regadio à volta da maior barragem da Europa, Alqueva.

    Só assim, com redução de despesas inúteis, mais ou menos supérfluas, e há tantas há tanto tempo, e aumento das exportações, é que se pode pensar em equilibrar a balança de pagamento e afastar as espadas que pendem sobre as cabeças de quem não tem culpa do estado a que isto chegou.

    Não é necessário ser-se economista para se preconizar este tipo de medidas. Aliás foram esses senhores que alimentaram e fomentaram, com as suas engenharias financeiras, a crise do subprime que começou nos States e deu no que deu nesta aldeia global.

    Se tem havido coragem para nos imporem tantos pacotes, qual deles o pior, há também que haver coragem para cortar onde se pode mesmo cortar, e incentivar a produção e a exportação do que é possível, enquanto é tempo.

    Amanhã poderá ser tarde.
    Carlos Pinheiro
    03.10.10

    • Obrigado pelo sólido comentário Observador.

      Acho que faltou apenas focar um ponto um pouco mais profundo que é por vezes mais difícil de destacar, porque coloca em causa anos de informação que nos tem sido bombardeada incessantemente.

      Se não colocarmos em causa o sistema político-económico em que actualmente vivemos, poderemos ter de apenas continuar a “agraciar” todos os problemas que salientaste, mesmo aplicando todas as soluções que enumeraste.
      Enquanto Portugal funcionar como Federação e não como país independente não irá conseguir resolver os problemas dos portugueses, resolverá apenas os dos europeus.
      Enquanto Portugal continuar a ceder que interesses privados – Banco Central Europeu – cunhe a sua moeda e lhe cobre juros sobre ela, o agravar do erário público não será apenas uma realidade, será uma inevitabilidade.
      (muitos mais pontos poderia enumerar aqui, mas este texto iria ficar demasiado extenso)

      Esta aldeia global, como salientas e bem, não consegue gerir os problemas locais… e se não os consegue gerir, então as suas estruturas político-económicas estão demasiado longe das pessoas… e se as pessoas são a base da democracia, pode-se então afirmar que esta estrutura politico-económica não funciona em favor das pessoas mas sim, muitas das vezes, em seu desfavor, levando a que eu conclua que o sistema é que é perverso, e que quase todas as soluções que tentemos encontrar dentro deste sistema perverso irão, mais cedo ou mais tarde, voltar a afastar-se das pessoas.

      De salientar que não sou contra a Europa tal como a vivemos actualmente, apenas contra o sistema que nos está a ser impingido, que está invertido nos seus princípios.
      Tem de ser uma Europa do local para o central e não do central para o local.
      Tem de ser um Mundo do local para o central.

  2. Concordo plenamente com as palavras de Henrique Neto, de uma frontalidade que há muito precisamos, palavras sabias estas mas pecam por tardia, porque será? Mas discordo inteiramente do que aqui se diz dele pois conheço bem o percurso deste senhor, não podemos esquecer que de um simples aprendiz passou a deter um dos maiores grupos portugueses chamado Iberomoldes a quem usurpou e tomou conta ilegalmente, o que muitos fizeram no 25 de Abril, não esquecendo também que estas palavras agora ditas por ele advêm de um ‘POSTO DE PARTE” há muito pelo PS, acabaram os subsidio desmedidos a este senhor? Vem agora acusar aqueles que o sustentaram durante anos com o que todos nos portugueses andamos a pagar, são poucos os portugueses que podem dizer que tem 8 Ferraris em casa, e falo só de uma marca, por isso nem tanto ao mar nem tanto a terra pois como este senhor existem muitos, andaram a sugar o que nos portugueses pagamos e que os “bananas” tão amigos deles são mas a torneira esta a fechar e por isso muitos virão com palavras “sabias” no futuro esquecendo o passado que lhes deu a riqueza e suposto “poder” que hoje tem. Mas serão sempre bem vindas estas formas de acordar um pais que há muito anda adormecido.

    • Caro Luis, o que diz sobre Henrique Neto é verdade e toda a gente em Leiria e na Marinha Grande o sabe, mas o que me interessa realmente são as palavras dele neste momento e não o passado dele. Não punha as minhas mãos no fogo por nenhum empresário deste país, o que não invalida que aproveitemos as suas palavras sobre a situação actual independentemente dos esqueletos que possa ter no armário.

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