O Petróleo Paga as Palavras

A investigação interna da BP vs. o que já sabemos. BP e parceiros trocam acusações.

Antes sequer de entrar no cerne da notícia, quero perguntar o que é jornalismo?

Será jornalismo apenas o reescrever de comunicados oficiais de corporações, de institutos ou de interesses, sejam eles partidários ou financeiros?

Infelizmente o jornalismo dos nossos dias é apenas quase só isso: reescrever comunicados sem questionar o que por lá é dito… sem usar o contraditório.

Passei o dia a tentar ver se algum órgão de comunicação nacional ou internacional conseguia fazer um pouco de jornalismo de verdade e colocava em causa algumas das coisas que saíram no último comunicado oficial da BP.
Encontrei um jornal e um jornalista que foi capaz de usar as verdadeiras ferramentas do jornalismo, que não são apenas o “copiar”, são a exposição de relatos tendenciosos, entre muitas outras coisas, de forma a passar à opinião pública a informação mais correcta possível.

Um dos pouco bastiões do jornalismo actual chama-se ProPublica, que é verdadeiramente uma ilha no deserto do jornalismo dos nossos dias.

O que fez de diferente o ProPublica?

Simples, usou as palavras da BP e os relatos dos engenheiros que trabalhavam na plataforma para questionar o relatório que foi posto a circular pela BP, o qual quase todos os meios de comunicação no mundo pegaram sem sequer questionar e lhe deram lugar de parangona.

Para quem anda distraído, principalmente nos meios de comunicação em Portugal, a informação sobre o derrame de Petróleo só vêm à tona quando é informação que “defenda” a BP – digo isto sem pudor algum… e quem tiver dúvidas é só verificar o que os jornais nacionais têm escrito, ou direi, descrito…

Usando as ferramentas do verdadeiro jornalismo, vamos lá então decantar um pouco do último relatório da BP:

A sua decisão de usar “long String” na construção do poço, que era a mais barata de todas as opções:
– No novo relatório diz que era prática usual o uso de tal opção.
– O relatório de uma Investigação do Congresso diz que a BP era a companhia que mais usava essa opção.

A sua decisão de não instalar o número de “centralizers” recomendados pela Halliburton:
– No novo relatório diz que essa decisão não contribuiu para o acidente…
– O engenheiro responsável da Halliburton testemunhou perante o Congresso que avisou a BP que essa opção era muito arriscada.

Ao retirar as lamas que selavam o poço e substituí-las por água salgada, o que tornou a plataforma mais propícia a explosões de gás:
– No novo relatório diz que essa era uma prática comum na industria.
– Horas antes do desastre, o engenheiro da Transocean na plataforma desaconselhou vivamente tal opção. (Declaração perante o Congresso)

As razões para o sistema de segurança (BOP) ter falhado:
– No novo relatório diz que os engenheiros da plataforma não realizaram os testes que deviam ter sido feitos e que o falhanço desse sistema de segurança era algo inimaginável.
– Os relatórios e as estatísticas, tanto das instituições reguladoras como da própria indústria, dizem que era prática comum a reduzida manutenção do sistema e que falhas criticas eram acontecimentos regulares.

Muito mais ficou por escrever, mas acho que estes exemplos já servem para tentar retractar uma das virtudes principais do jornalismo: a verificação da fidelidade que é veiculada.

Conclusão:
Ser jornalista ou fazer jornalismo nos tempos que correm é apenas um acto de copy/paste de informação sobre a qual raramente é usada a verificação da informação e a utilização do contraditório.
O jornalismo dos nossos dias é mais publicidade encapotada do que verdadeiro jornalismo. Será paga como é toda a publicidade não encapotada?

Um dos principais sintomas da vitalidade de uma democracia é a sua comunicação social… e se medirmos o valor da democracia em que vivemos comparando-a com o jornalismo que nos é veiculado, podemos ficar com uma imagem bastante negra da vitalidade daquilo que tantos morreram a tentar defender…

O petróleo deve mesmo pagar as palavras de muitos “alguns”… o petróleo e tantos outros bens…

Notícia do ProPublica – BP’s Internal Investigation vs. What We Already Know
Notícia da Reuters – BP e parceiros trocam acusações sobre vazamento de petróleo
Notícia do Diário Económico – BP recusa ser o único responsável pelo derrame
Notícias de Apoio:
Notícia da ProPublica – Did BP’s Acts to Save Time and Money Set the Stage for the Gulf Disaster?
Notícia do Wall Street Journal – BP Relied on Cheaper Wells
Notícia do Nola – Halliburton employee warned BP that oil well plan was risky, he testifies at oil spill hearings
Notícia da ProPublica – After Removing Mud Before Accident, BP’s “Top Kill” Injects Mud to Stop Oil
Notícia do ProPublica – Despite Previous Equipment Failure, BP Says Spill ‘Seemed Inconceivable’

About minhamosca

Em busca de mais conhecimento

Posted on 09/09/2010, in Ambiente, Corrupção, Energias and tagged , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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