Os Alimentos e o Preço da Discórdia

Aumentam os receios de uma escassez na oferta de alimentos. Preço da carne em máximos dos últimos 20 anos.

Antes de penetrar mais fundo nas ramificações deste problema, vou pegar num dos principais objectivos para a existência da mOsca.
O artigo que abriu as hostilidades por cá foi exactamente sobre este tema: O Assassino Silencioso. Um dos principais objectivos da mOsca é o tentar antever tendências globais/locais que nos poderão afectar negativamente no futuro, objectivo parcialmente atingido neste tema.

Agora ao que interessa e deixando para trás a auto-glorificação e os objectivos atingidos.

A Rússia e mais recentemente Moçambique e a revolta popular, são as faces visíveis de um problema que já o era antes de começar a ganhar espaço de parangona nos meios de comunicação para as massas. Parte da essência do problema está descrita no artigo O Assassino Silencioso ao qual temos de juntar as políticas de financiamento internacional à produção de biocombustíveis que estão a ocupar terrenos que anteriormente serviam para a agricultura, e ainda outros factores que irei nomear mais abaixo.
É tão fácil “culpar” apenas o bloqueio da Rússia às exportações como a causa para o aumento do preço dos alimentos a nível global. É tão redutora essa visão que é quase como dizer que sem nuvens não chove.

Se a culpa é da limitação que a Rússia está a impor às exportações de trigo, porque está o arroz a subir? Porque está o café a subir? Porque está a carne a subir? Porque está o cacau a subir? Porque estão tantos alimentos a subir que nada têm a ver com a seca na Rússia?
Podemos então convictamente afirmar que a culpa não é da seca na Rússia.

Outro factor menos conhecido é o aumento do preço dos fertilizantes, devido ao aumento do preço do petróleo e principalmente ao aumento do preço do fósforo.
O fósforo é apenas e só o componente mais importante para a produtividade agrícola mundial e é um elemento que está a caminhar a passos largos para a sua depleção no planeta.

Temos também o esgotamento dos solos.
Os métodos de produção intensiva da agricultura moderna conduzem a um rápido esgotamento dos solos. As práticas ancestrais de rotatividade de colheitas passaram de “moda”, agora as monoculturas são rainhas e elas drenam os solos dos seus nutrientes deixando-os comercialmente inviáveis, ou levando a que estes tenham de sobreviver à custa de cada vez mais fertilizantes.

Outro dos factores apontados é o aumento da população no planeta. Por muito importante que seja esta análise, não é, nem tão cedo será, a principal causa para o aumento dos preços.
O perigo e facilitismo de tentar abordar esta questão contemplando apenas este prisma conduz a uma visão totalmente distorcida da questão. As áreas do planeta em que a população mais tem crescido são áreas em que a fome e a extrema pobreza mais abundam – no mundo chamado desenvolvido a população tem vindo a diminuir. Portanto, é plausível concluir que não é directamente reflectido num aumento exponencial do consumo nem dos preços –  a nível global.
Acho que será mais honesto dizer que o aumento da população mundial tem conduzido a mais fome e a mais pobreza no mundo… não é directamente atribuível à escassez de alimentos, principalmente porque os preços dos alimentos já eram incomportáveis para essas populações antes sequer de existir a questão dos preços dos alimentos no mundo ocidental.

E para fechar os factores, o aumento da procura dos mercados emergentes – China e Índia, principalmente.
Esta irá ser a par do aquecimento global a causa mais vezes invocada para o aumento dos preços… pensem aquilo que quiserem, para mim estes irão ser os bodes expiatórios das políticas dos mercados financeiros…
No cerne desta questão está a mesma política que tem vindo a destruir o sector agrícola um pouco por todos os países desenvolvidos no mundo: o desinvestimento na agricultura em benefício da industrialização e serviços de todos os sectores das sociedades desenvolvidas… Portugal é um excelente exemplo dessas políticas. Não é por falta de terrenos agrícolas que Portugal não produz mais, é por directrizes políticas de desinvestimento no sector agrícola, apenas isso…

Juntemos então os factores:

– Esgotamento dos solos.
– Aumento do preço dos fertilizantes.
– Produção de Biocombustíveis.
– Aumento da população mundial.
– Quebras nas colheitas devido a intempéries.
– Aumento da procura nos mercados emergentes.
– Especulação de preços.

Se retirarmos da equação o aumento da população mundial, as quebras nas colheitas devido a intempéries, e o aumento da procura nos mercados emergentes, acho que fica a nu a fórmula de produção alimentar usada neste mundo moderno.
O Homem ao desassociar-se da terra e da natureza embarcou num caminho de tentativa de exploração abusiva das riquezas do planeta.
O esgotamento dos solos com monoculturas, que necessitam de cada vez mais fertilizantes apenas para tentar manter os níveis de produção, faz disparar os preços dos alimentos.
O investimento em politicas, que considero quase insanas, de subsídios aos biocombustíveis em desfavor da produção de alimentos tem vindo a aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos.
E juntamos a isto mais uma das imagens de marca das ditas sociedades desenvolvidas, a especulação monetária desregulada, livre para qualquer um poder “brincar” com a fome, e temos o circuito fechado.
Esta politiquice rafeira de desinvestimento na produção alimentar local em favor de políticas de valor questionável é a verdadeira causa de todas as causas que se possam imputar ao aumento dos preços dos alimentos.

Uma vez mais, quando as instituições internacionais não abordam as questões no seu âmago, todas e quaisquer soluções que emanem dos seus painéis de cientistas – que invariavelmente são corruptíveis a interesses financeiros – apenas adiam a necessidade de tomada de medidas que se foquem no raiz do problema, ajudando também de forma directa ao aumento dos preços.

Infelizmente, por norma, terão acontecer mais umas quantas centenas de milhares de mortos devido à fome, mais umas quantas revoluções populares, até que se volte a colocar um efémero travão nestas políticas… digo efémero porque mal os Zé Povinhos do mundo se esqueçam do que aconteceu, volta tudo ao ponto em que estava antes e talvez somado com mais umas políticas rafeiras sustentadas apenas pela ânsia de ganância de mais uns quantos interesses financeiros…

Notícia da CNN – Fears grow over global food supply
Notícia do Diário Económico – Preço da carne está em máximos de 20 anos
Notícias de apoio:
Notícias do The Guardian – Food prices to rise by up to 40% over next decade, UN report warns
Notícia do Pravda – Experts Predict Global Hunger Riots Amid Food Prices Hysteria
Notícia do The New York Times – Peak Phosphorus
Notícia do Sustainable Phosphorus Future – The Story of Phosphorus: 8 reasons why we need to rethink the management of phosphorus resources in the global food system
Notícia do The Guardian – Food supplies at risk from price speculation, warns expert

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Em busca de mais conhecimento

Posted on 03/09/2010, in Agricultura, Ambiente, Economia, Energias and tagged , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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